As bizarrices do mundo acadêmico brasileiro, ou A deificação da ABNT

Quem está terminando a faculdade ou está em vias de escrever algum artigo acadêmico já deve ter experimentado essa sensação: um ódio profundo e incontornável às regras da ABNT. Ao invés de se preocupar com o conteúdo do que vai escrever, o sujeito passa mais tempo procurando adaptar o texto às normas estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas. A coisa já atingiu tal dimensão que já há quem recorra a “profissionais da formatação” para fugir ao fantasma das quatro letrinhas, como se todo seu sucesso profissional dependesse disso.

Antes de criticar, é preciso saber, em primeiro lugar, que a ABNT dá as cartas em muitas áreas, não somente em relação aos trabalhos acadêmicos. Quase todos os setores industriais e de serviço seguem religiosamente as regras de normalização. É graças à ABNT, por exemplo, que muitos prédios permanecem de pé. É ela, por exemplo, quem determina parâmetros mínimos como quantidade de pilares x altura de um prédio, espaçamento entre vigas, tamanho de degraus de escada, enfim… São regras básicas que, se atendidas, garantem a solidez da construção.

No plano acadêmico, contudo, a ABNT passou a ter um peso desproporcional à sua importância. É como se tudo girasse em torno dela. A importância do tema, a relevância da investigação e a qualidade do texto apresentado são colocados em segundo plano, para favorecer a observância de regras de funcionalidade muito, mas muito duvidosa. Vamos a alguns exemplos:

Para fazer uma referência a uma obra citada, deve-se abrir um parênteses escrever, no corpo do texto, o sobrenome do autor, seguido pelo ano da obra e a página onde se encontra o trecho citado (FULANO, ano, p. X). Além de provocar descontinuidade na leitura do texto, como imaginar que esse sistema possa ser melhor do que a velha e boa citação em nota de rodapé,  contendo o nome completo do autor, da obra, edição, cidade, editora e o ano da publicação (PEREIRA, Fulano dos Anzóis. Obra. 10ª ed. Cidade: Editora, 2010)?

Por falar em edição, aliás, como explicar que a regra agora seja cassar o ordinal da edição? Ao invés de citar, por exemplo, você deve cortar a menção ao ordinal e citar somente o número seguido da abreviação de edição. Ou seja: ao invés de “10ª ed.”, você deve escrever “10 ed”. Além de atentar contra a lógica, tal determinação atenta contra o vernáculo.

A despeito das críticas às eventuais bizarrices da ABNT, verdade seja dita: a culpa dessa deformação recai menos sobre ela e mais sobre os professores que promoveram o endeusamento das suas regras em detrimento do conteúdo produzido. Como a comunidade acadêmica brasileira – principalmente a de Humanas, mais ainda a Jurídica – vive uma crise de mediocridade sem precedentes, as regras da ABNT se transformaram na tábua de salvação de gente sem tempo nem capacidade de avaliar os trabalhos realizados pela garotada.

 Nesse caso, o Brasil encontra-se anos-luz atrás de Portugal. Lá, não existe ABNT para ditar as normas de escrita de artigos acadêmicos. A regra é uma só: escolha um padrão e siga-o até o fim. Com isso, 0 sujeito pode se dedicar apenas àquilo que realmente interessa: o conteúdo do trabalho.

Quem diria? Nós, que adoramos brincar com a suposta incapacidade dos portugueses de compreenderem assuntos prosaicos, viramos motivo de piada acadêmica por querer transformar coisas simples em inutilidade complexas. O destino, como o humor, é realmente recheado de ironias…

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