O futuro do Brasileirão, ou O fim da inocência do futebol brasileiro

Não se fala em outra coisa. Desde que a Copa do Mundo terminou, há pouco menos de um mês, todo mundo que gosta de futebol ficou com uma leve crise de abstinência, doido para que o Campeonato Brasileiro voltasse. Agora, que os jogos voltaram, a ressaca não poderia ser pior: ninguém aguenta mais assistir aos jogos do Brasileirão.

Antes da Copa, dizia-se que o evento ajudaria a fomentar o esporte no país. E por “esporte”, entenda-se, o próprio futebol, pois ninguém alimentava a mais remota ilusão de que a Copa traria algum benefício aos esportes olímpicos e seu contumaz estado de penúria. Para quem defendia o evento, a reforma dos estádios, a conclusão de algumas das obras de mobilidade e, principalmente, a importação do “padrão Fifa” para realização dos jogos aumentaria o interesse do público, fazendo com que mais pessoas fossem aos estádios.

Faltou combinar com os russos. Os estádios de fato melhoraram e a infraestrutura pode ser que não seja inteiramente má. Mas o problema é a qualidade da bola que rola dentro deles. Quanto a isso, pouco ou nada foi feito pelos responsáveis pela organização do nosso futebol.

Do outro lado do problema, técnicos e jogadores reclamam das comparações. Para eles, não seria justo comparar o nível do futebol praticado no evento da Fifa com o desenvolvido no Brasileirão. O empenho, a motivação, a qualidade técnica dos jogos da Copa não podem ser utilizados como parâmetro, dizem os envolvidos, pois não há a mesma preparação para os dois eventos.

Será?

Toda vez que um técnico da seleção convoca jogadores para uma competição ou para um amistoso, a primeira desculpa lançada na coletiva quando o time vai mal é que “só houve três dias para preparação”. Quando o time consistentemente joga mal, a desculpa é que não se pode comparar o futebol da seleção com os dos times, pois nestes há “entrosamento”. No fundo, a questão é bem mais simples: nossa seleção vai mal porque o nosso campeonato nacional vai péssimo há muito tempo.

Veja-se, por exemplo, o que aconteceu nos últimos três brasileirões. A disputa envolvendo o rebaixamento de times tradicionais trouxe muito mais “emoção” à competição do que propriamente a disputa pelo título. Pouca gente se dava ao trabalho de analisar os próximos jogos do líder, porque o taça era decidida com várias rodadas de antecedência. Na ponta de baixo, no entanto, todo mundo ficava matutando a tabela dos 7 ou  times que concorreriam a uma vaga na Segundona, pra saber quem cairia primeiro.

Curiosamente, o Brasileirão ficou refém do sucesso da Copa. É dizer: como assistimos, possivelmente, a uma das cinco melhores copas de todos os tempos em nível técnico, ficou duro engolir as peladas rotineiras do Campeonato Brasileiro. Quem, em sã consciência, ficaria satisfeito ao assistir coisas como Flamengo x Chapecoense, tendo assistido há pouco mais de um mês a Colômbia x Uruguai, ou Alemanha x Argélia?

Não que se trate de um fenômeno novo. A decadência do futebol brasileiro acontece a olhos vistos há pelo menos uma década. O que a Copa do Mundo fez foi somente escancarar o péssimo nível do futebol praticado no Brasil. Subitamente, como alguém que tropeça na realidade, todo mundo perdeu a inocência. O Brasileirão é um lixo; essa é a triste verdade que ninguém – ou quase ninguém – conseguia enxergar. A questão, agora, é saber se é possível mudar o quadro.

No curto prazo, não há muito a fazer. Vamos ter que aguentar as peladas por pelo menos mais dois anos. No médio prazo, contudo, alguns bons sinais se insinuam o horizonte. E o principal deles vem da Rede Globo. Como a péssima qualidade dos jogos, cedo ou tarde, influenciará no nível da audiência, a emissora carioca vai perder telespectadores. Perdendo telespectadores, perderá patrocinadores. E, perdendo patrocinadores, perderá dinheiro.

Ironia das ironias, a possível salvação do Campeonato Brasileiro pode residir numa prática pouso usual aos cartolas nacionais: o saudável exercício do livre capitalismo. A conferir apenas se a feudal estrutura do futebol brasileiro está preparada para semelhante choque.

Anúncios
Esse post foi publicado em Esportes e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.