O Iraque indo pelo ralo

Em tempos de Copa do Mundo e, pra quem não gosta de futebol, às finais de Wimbledon, fica difícil prestar atenção em alguma outra coisa que não seja esporte. No entanto, no meio de toda essa euforia que monopoliza o noticiário nacional, quase ninguém deu importância a um fato muito relevante no cenário internacional: o avanço da frente jihadista no Iraque.

Para quem estava mais preocupado com a lesão na terceira vértebra da lombar de Neymar, já há alguns meses formou-se na Síria e na região do Curdistão uma falange muçulmana que se autointitulou “Estado Islâmico do Iraque e no Levante”, ou ISIS. Formada por militantes que lutam contra Assad e ex-integrantes da Al-Qaeda, o ISIS reúne hoje algo como 8.000 combatentes.

Com esse exército diminuto, os jihadistas já conseguiram fazer com que o Iraque se esfarelasse como a última bolacha no pacote de água e sal. Hoje, já controlam o norte e o centro do Iraque, além de partes da Síria e do Curdistão. Havia o risco de que os rebeldes avançassem sobre Bagdá, mas, pelo menos até o momento, essa hipótese está afastada.

Como se chegou até esse ponto?

Pra quem estudou um pouco de história, não é muito difícil entender o porquê. Quando Bush Jr. contrariou metade do planeta para destronar Saddam Hussein, todo mundo sabia no que ia dar. Nenhum país autocrático pode ser facilmente convertido à democracia, ainda mais quando democracia não é exatamente uma tradição do lugar. A coisa fica ainda pior quando o lugar em questão é o Oriente Médio, região dominada pelo islamismo, uma religião cuja maioria dos praticantes nunca foi muito fã das práticas democráticas. Por uma década, o governo títere do Iraque foi mantido à custa das armas norte-americanas. No momento em que os americanos se foram, o frágil equilíbrio de forças iraquiano foi levado pelo vento.

Como desgraça geopolítica pouca é bobagem, o castelo de cartas começou a ruir justamente quando os americanos começaram a ajudar por debaixo dos panos os insurgentes sírios. São as armas com as quais os americanos pensavam que iriam derrubar Assad que hoje servem aos membros da frente jihadista que está em vias de derrubar o governo do Iraque.

Ironia das ironias, no meio de todo esse bafafá, o governo iraquiano recorreu a quem? Aos próprios americanos. Obviamente, faltam a Obama capital e disposição política para voltar a enterrar os pés no deserto árabe. O presidente norte-americano encontra-se numa sinuca de bico sem paralelo: seu maior trunfo nacional – a retirada do exército ianque do Iraque – obriga a arrostar o risco de seu maior fracasso geopolítico – o derretimento do governo iraquiano, com a assunção de um governo fundamentalista islâmico à quinta maior reserva petrolífera do mundo.

Como diria Morpheus, fate, it seems, is not without a sense of irony.

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