Talento x Censura

Já que hoje é aniversário do Chico Buarque, me veio à cabeça uma das grandes polêmicas acerca da carreira desse grande artista.

Como todo mundo sabe, Chico foi um dos grandes contestadores do regime militar. Submetido a uma censura atroz, o compositor carioca teve 9 em cada 10 músicas censuradas pelo regime antes mesmo de serem lançadas. As demais eram censuradas uma semana depois, quando o povo deixava entrever para os imbecis da censura a crítica política escondida nas entrelinhas de suas composições elegantes e de sua fina ironia.

Desde sempre, o embate entre o talento dos artistas e a perseguição da censura estava destinada à vitória dos primeiros. Afinal, não havia como comparar a inteligência de gênios da arte como o próprio Chico, Gil e Caetano à incapacidade cavalar da burocracia responsável por “fiscalizar” as composições por eles produzidas. Uma vez na boca do povo, as letras se espalhavam, e a tarefa de proibir a execução pública das músicas tinha resultado nulo, pois não havia como fiscalizar o que se passava dentro de todas as casas. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Cálice, uma referência nem um pouco suave discreta à própria censura (Cale-se).

O embate entre músicos e censura foi permanente enquanto durou a ditadura militar. Depois dela, os censores ainda conseguiram uma ou outra vitória esporádica no Governo Sarney – como a censura ao filme Stallone Cobra -, pois ela só veio a ser definitivamente abolida com a promulgação da Constituição de 1988.

Depois que os militares voltaram para as casernas, muita gente ficou a se perguntar se a perseguição não aguçara a criatividade dos artistas. Ou, por outro lado, se eles não tinham sido tão brilhantes no que compunham justamente porque era perseguidos. A essa dúvida acabou correspondendo o declínio criativo da maioria dos totens da MPB, Chico incluso, o que conduziu mesmo gente que não viveu aquele período a endossar a tese de que “música boa era quando tinha ditadura”.

Que a obra dos gênios contestadores da MPB daquela época não se compara à que veio depois de 1988, ninguém discute. A questão é: até que ponto a queda na produção pode ser atribuída ao fim da perseguição e ao da censura?

Chico Buarque é um dos que sempre rejeitou a associação. Para ele, uma coisa nada a tinha a ver com a outra. No limite, seria até mesmo um acinte imaginar que as composições produzidas naquele período devem sua existência à sanha perseguidora irracional de uma ditadura que via fantasmas em toda esquina. Pensando bem sobre o assunto, é difícil negar-lhe razão.

De fato, depois de 1985 Chico Buarque não compôs nada parecido a Vai passar, Apesar de você e Jorge Maravilha. No entanto, o declínio de sua capacidade criativa deve ter uma razão muito menos conspiratória e mais prosaica do que imagina a maioria: a idade. Quando a ditadura tomou o caminho da roça, Chico Buarque já tinha quase 50 anos. Nem mesmo os gênios da música clássica, como Wagner e Beethoven, compuseram suas melhores obras depois de meio século de vida.

Na verdade, como o filho de Sérgio Buarque bem aponta, todo mundo deveria lamentar que o gênio desses artistas tenha sido limitado de forma tão feroz como aconteceu. Se Chico, Gil e Caetano tivessem vivido em um tempo de plena liberdade, não teriam que ter queimado tanta pestana pensando em como driblar a censura.

O raciocínio, na verdade, deve ser o inverso do que pensa a maioria: imagina só o que Chico Buarque e outros compositores não poderiam ter escrito se não houvesse a censura a lhes atazanar o juízo?

Não há, portanto, razão para querer atribuir  censura qualquer efeito colateral benéfico. Assim como a ditadura que a originou, a censura é um mal; um mal a ser combatido todo dia por quem gosta de boa música.

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