A crise ucraniana

De volta dos festejos mominos, vamos à pauta represada pelo feriado. No topo da lista, o mais recente revival da Guerra Fria: a crise na Ucrânia. Como tudo em matéria de política internacional, para entendê-la é necessário voltar um pouco no tempo e entender os fatores históricos que levaram a ela.

Desde sempre, a Rússia exerce um papel de destaque no mundo. 90% disso deriva de seu imenso território, que se estende desde o fim da Europa até os confins do continente asiático. Para ilustrar o gigantismo do colosso russo, basta citar um dado: o país tem nada menos que treze – isso mesmo, TREZE – fusos horários.

O problema é que, na porção asiática (quase 90% do total), o interesse geopolítico só se justifica pelo conjunto, não pelo particular. Melhor explicando: nenhuma das republiquetas russas ao leste – nem mesmo a famosa Sibéria – tem qualquer valor intrínseco. Há alguns minérios, petróleo, mas nada pelo qual qualquer outro país morreria. Elas só valem porque, juntas, representam o país com a maior extensão territorial do planeta.

Em grande parte, o desinteresse particular das terras ao leste deriva do fato de que a região ostenta algumas das menores temperaturas médias do globo. Somando-se a isso a virtual ausência de civilização em grande parte desse território, não é difícil entender o caráter inóspito da porção oriental da Rússia.

Exatamente por isso, o país sempre pretendeu estender sua hegemonia para a porção ocidental. Quando pôde, fez isso na cara dura, mesmo, quando dividiu o território polonês com a Prússia e Áustria. Quando não deu pra fazer na marra, fez isso por meio do estabelecimento da “áreas exclusivas de influência”, como ficou ajustado no concerto do pós-guerra. Daí nasceu a famosa expressão de Churchill – “Cortina de Ferro” – para designar as áreas sob domínio soviético.

Tudo mudou, claro, com a débâcle da União Soviética no começo dos anos 90. O outrora todo-poderoso Império Russo fragmentou-se em mais de uma dezena de repúblicas, todas exaustas dos mais de 70 anos de totalitarismo comunista.

Mesmo tendo se mantido como o maior país do mundo, a Rússia ficou marcada por dois sentimentos, aparentemente contraditórios. O primeiro, de ressentimento, movido pelas saudades do antigo Império que fazia o mundo tremer. O segundo, de medo, pois o mesmo processo de fragmentação pela qual passou a URSS poderia afetar a própria Rússia, ela mesma uma colcha de retalhos étnico-cultural.

Para neutralizar tanto o ressentimento como o medo, todos os presidente russos que estiveram no poder, desde Yeltsin até Putin, sempre tentaram manter acesa a chama da Poderosa Mãe Rússia. Valeram-se, claro, do arsenal atômico que, embora velho e desmantelado, ainda é suficiente para destruir o mundo uma centena de vezes.

Sob esse pano de fundo, a mais recente crise surgiu quando a União Européia começou a se engraçar para a Ucrânia. Disposta a expulsar os russos cada vez mais para o Leste, a União Européia achou por bem convidar os ucranianos para o grupo. Deu zebra.

Como a Rússia está para suas ex-repúblicas como as sogras estão para os ex-maridos, Putin bateu o pé e não deixou que o país se baldeasse para o lado ocidental do continente. Ofereceu muito dinheiro e gás subsidiado para que a Ucrânia desistisse do acordo com os europeus. Viktor Yanukovic, presidente ucraniano, levou o pé à porta e barrou o acerto. Resultado? O povo saiu às ruas contra o governo e a interferência russa.

Por uma dessas coincidências do destino, a convulsão social se deu enquanto rolavam os Jogos Olímpicos de Sochi. Como invadir países durante as Olimpíadas é uma declaração universal de barbarismo, Putin ficou na dele. Enquanto isso, a oposição ucraniana, incensada pelas ruas e pelo apoio europeu, tratou de defenestrar Yanukovic, que se refugiou na Mãe Rússia. Agora, findos os Jogos de Sochi, Putin resolveu mostrar os dentes.

Primeiro, mandou tropas para a Criméia. Com a mesma desculpa usada por Hitler na anexação dos sudetos da Checoslováquia, Putin alegou que o fazia para defender os povos de origem russa. Segundo, resolveu fazer “exercício militares” na fronteira com a Ucrânia, numa clara demonstração de força para intimidar o governo pró-ocidental que tomou posse.

Nenhuma das duas justificativas se sustenta. Nem mesmo a base de Sebastopol serve como álibi para uma invasão russa, pois a frota lá fundeada é e sempre foi secundária. Além disso, depois do fim da Guerra Fria, o interesse geopolítico pelo Mediterrâneo ficou bem menor. A única coisa que “justifica” os movimentos russos é o paradoxo ressentimento-medo acima aludido.

Do outro lado, tem-se um Obama vacilante. Desde que foi “trucado” na Síria, Obama perdeu o pouco que tinha de credibilidade quanto às ameaças de resposta a agressões à lei internacional. Provavelmente por isso, Putin resolveu dobrar a posta e já combinou com as autoridades da Criméia sua anexação à Federação Russa, algo que deve acontecer nos próximos dias.

A questão, pois, se resume a saber uma única coisa: Obama vai pagar pra ver?

Pelo histórico, a chance é mínima. Não só Obama não é o mais convicto dos presidentes americanos, como não teria o menor apoio interno para uma nova empreitada a essa altura do campeonato.

Além disso, resta saber o que seria “pagar pra ver”. Ninguém acredita numa guerra com a Rússia por causa da Ucrânia. Nem a Ucrânia vale tudo isso, nem muito menos qualquer território seria tão importante para justificar uma guerra contra a segunda maior potência nuclear do planeta. O mais provável, portanto, é que as retaliações se dêem no campo diplomático.

Mesmo assim, é bom colocar as barbas de molho. Nunca é demais recordar que a I Guerra Mundial começou com um episódio banal, quase desimportante: o atentado ao arquiduque Francisco Ferdinando. Anos depois, foram entrevistar o estudante sérvio responsável pelo seu assassinato . Quando lhe perguntaram como se sentia sendo o responsável direto pela morte de 50 milhões de pessoas, sua única afirmação foi a seguinte:

“Eu nunca pensei que fosse terminar naquilo”.

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