O fim da alternativa bolivariana

Semana curta de volta ao batente, um monte de coisa na fila para falar. Na cabeça, dois fatos aparentemente distintos, masque, no fundo, têm a mesma raiz: o desmanche da Venezuela e a crise sem fim na Argentina.

Não faz muito tempo. Há pouco mais de dez anos, Hugo Chávez ressurgia em toda a sua glória depois de uma tentativa fracassada de golpe e a Argentina, depois de experimentar cinco presidentes em uma semana, parecia que tinha arrumado o prumo com Nestor Kirchner à frente.

Apoiado na alta do petróleo, Chávez implementou ainda com mais força suas políticas populistas. Ao sul do continente, Kirchner forçara a banca a engolir o maior calote público de todos os tempos, pagando menos de 20% do valor de face pelos títulos argentinos que os credores tinham nas mãos.

Eram tempos gloriosos para la izquierda latinoamericana. Os dólares jorravam na Venezuela e a Argentina, tendo conseguido forçar a troca de seus títulos, saíra tecnicamente da situação de calote. Os países ajudavam-se mutuamente, com Chávez emprestando o dinheiro que lhe sobrava aos Kirchner, e os Kirchner exportando gêneros alimentícios para a Venezuela.

Mas, como tudo que é sólido se desmancha no ar, a conta demorou, mas chegou.

Como todo o excedente comercial venezuelano era investido em compras supérfluas e em políticas populistas, ninguém se preocupou em utilizar pelo menos parte desse dinheiro na diversificação do parque industrial do país, restrito à indústria de petróleo. Para piorar, com o aparelhamento da PDVSA, até mesmo a galinha dos ovos de ouro os chavistas conseguiram matar; a produção de petróleo na Venezuela é hoje menor do que fora há dez anos. Isso mesmo sendo o país uma das três maiores reservas petrolíferas do mundo.

Do lado argentino, os Kirchner descobriram tardiamente que o mercado não tem escrúpulos, mas tem memória. Como ninguém até hoje engoliu o calote enfiado goela abaixo, a Argentina simplesmente não tem acesso ao mercado externo. Com a queda do preço de suas commodities, ficou cada dia mais difícil fechar o balanço de pagamentos. Sem dólares, não há como importar para fazer frente à demanda interna. Daí o estouro da inflação.

Ao invés de tentar resolver o problema, o governo Kirchner resolveu seguir o caminho fácil do populismo. Restringiu as compras externas, manipulou os índices de inflação e tirou da aposentadoria o já totalmente desacreditado congelamento de preços.

Se isso não bastasse, os poucos credores que não engoliram o calote de 2002 resolveram ir à justiça americana cobrar US$ 1,3 bilhão que entendiam devido. A Argentina já perdeu em todas as esferas e recorreu hoje à Suprema Corte tentando adiar uma derrotada tida como inevitável. Como não tem dólares para quitar essa dívida, quando isso acontecer, o país terá retornado oficialmente à condição de caloteiro internacional.

Pior mesmo, só na Venezuela. Além de atravessar os mesmos problemas econômicos pelos quais passa a Argentina, o líder máximo da revolução bolivariana se foi e o seu substituto, Nicolás Maduro, já deu provas suficientes de que não tem o menor jeito pra coisa. O país está em convulsão social há duas semanas e a única coisa que o governo venezuelano tem feito é remover os últimos resquícios daquilo que um dia se pretendeu uma democracia. A repressão só aumenta, a imprensa foi censurada e o principal líder oposicionista está ameaçado de ir à cadeia se sair à rua para protestar.

Para a Argentina, portanto, só resta a cartada de uma maxidesvalorização do peso, com consequências imprevisíveis para a já elevada inflação do país. Para a Venezuela, de duas, uma: ou Maduro cai por efeito da gravidade, ou radicaliza a “revolução bolivariana” e transforma a Venezuela numa Cuba 2.0.

Com seus dois maiores expoentes indo pelo ralo, é seguro afirmar que a idéia de um gobierno popular de izquierda, forjado em plebiscitos constitucionais oriundos de maiorias eleitorais recicladas, acabou. A combinação de práticas econômicas heterodoxas com populismo mais descarado acabou como sempre acaba: numa crise política decorrente de uma crise econômica.

Eis o novo velho panorama da América Latina.

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