Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo no mundo que a gente acaba deixando de lado certas coisas que normalmente atrairiam nossa atenção. Nesse caso, uma notícia aparentemente trivial, banal mesmo, mas que traz muitos significados por detrás dela. Falo do fim da MTV Brasil.
Como todo mundo da minha idade – e até gente mais velha – sabe, a MTV brasileira deixou de lançar sua programação na rede aberta de televisão. Por razões que muita gente boa ainda não compreendeu de maneira completa, no último dia 30 a expressão televisiva da juventude levou ao ar seu último clip: Maracatu Atômico, de Chico Science. (Não alcanço a razão da escolha, mas vá lá; pelo menos é um clipe decente).
Nascida em 1990 como reprodução de sua matriz norte-americana, a MTV Brasil alcançou um sucesso sem precedentes para uma rede de cunho monotemático. Quer dizer, na MTV só rolava uma coisa: música. E, ainda assim, era difícil encontrar jovem ou adolescente dos anos 90 que não assistisse esporadicamente sua programação, e de modo rotineiro ao menos um de seus muitos programas. A emissora conseguiu, a um só tempo, popularizar um modo de ser e ditar as tendências da época.
As razões a explicar o sucesso da MTV podem ser várias, mas há dois fatores que considero fundamentais.
Primeiro, aquela geração de jovens dos anos 90 era o público perfeito para uma emissora que se pretendia vanguarda, mas que era apenas plural. Depois da “década perdida” nos anos 80, os anos 90 prometiam muitas mudanças, com um novo Brasil ainda por se construir. Um país no qual depunha-se presidente da República sem recorrer às armas e que enfim conseguia vencer a batalha contra a inflação. Como todo adolescente de todas as épocas, também a geração 90 achava que poderia mudar o mundo. E, de certa maneira, assistir a uma programação “jovem”, produzida por “jovens” era uma forma de estar antenado com as tendências do mundo moderno.
Além disso, o segundo fator primordial para o sucesso da MTV Brasil foi a qualidade da música que se desenvolvia abaixo do Equador. Não se vivia mais os tempos da ditadura, e, na mente do jovem de então, figuras como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque deixaram de representar a vanguarda revolucionária para se tornarem “apenas” totens da Música Popular Brasileira. Como obras-primas em museus, todos os grandes compositores da última geração da MPB deveriam ser revisitados de quando em vez, mas não seriam eles que apontariam o caminho dos tempos futuros. Com outros desafios e uma pauta inteiramente diversa, essa tarefa competiria a figuras como Gabriel, o Pensador, Chico Science e Marcelo D2. Junto com Marisa Monte, Racionais, Raimundos e Cia., todos eles levaram adiante um estilo musical que em nada lembrava o pop/rock dos anos 80, nem tampouco poderia ser enquadrado no conceito “clássico” de MPB.
Com tanta gente boa fazendo música de qualidade, não foi difícil para a MTV organizar, a partir de 1995, o Video Music Awards Brazil. Pode não parecer nada, mas se tratava do único VMA organizado fora dos Estados Unidos a reunir artistas de um único país.
Com o tempo, no entanto, a qualidade da música desenvolvida no país caiu. Chico Science morreu, Rodolfo (Raimundos) se tornou evangélico e Marcelo D2 saiu do Planet Hemp. Do outro lado da telinha, os adolescentes que passavam horas em frente da TV descobriram a infinita variedade da quantidade boçal de canais ofertada pelas TVs a cabo. Pra piorar, ganharam computador e, na virada do milênio, a Internet deixou de ser privilégio de poucos. O tempo que era gasto na TV seria usado, agora, para fuçar na net, entre chats e correntes de email.
Isso, por si só, não seria suficiente para derrubar a MTV, todavia. Em regra, as gerações se sucedem, e a anterior sempre tende a acreditar que a seguinte é menos legal que a sua. E música ruim por música ruim, também a havia nos anos 90, embora a safra atual seja mais generosa neste aspecto.
O grande golpe à rede de música, na verdade, foi o Youtube. Desde a sua criação, o sujeito não tem mais que ficar fuçando na TV ou procurando arquivo pirata na Internet para ver o clipe mais desejado. Basta acessar o site do Youtube, clicar o nome do artista ou da música e pimba; lá está o clipe. A MTV, portanto, tornou-se obsoleta.
É certo que a rede ainda tentou se reinventar praticando o humor como atração principal. No entanto, é natural que o sucesso de seus artistas acabe despertando a cobiça de suas concorrentes na TV aberta. E, convenhamos, a MTV jamais teria bala na agulha pra competir pelos seus talentos com, por exemplo, a Rede Globo. Não à toa, Tatá Werneck e Marcelo Adnet hoje figuram entre as principais atrações da Vênus Platinada.
Com o fim da MTV, morre também uma parte da adolescência de todos nós. Mas, antes de se ficar triste pelo que acabou, há de se ficar feliz pelo que aconteceu. Como diria Paul McCartney, o grande segredo da vida é live and let die.
R.I.P MTV…