O Informante

1999 foi um ano mágico para o cinema holywoodiano. Dois dos melhores filmes de todos os tempos foram produzidos nesse ano (O Sexto Sentido e o Matrix) e mesmo assim nenhum deles ganhou o Oscar de melhor filme, honraria que coube ao insosso Beleza Americana. Talvez por causa disso, um grande filme daquele ano acabou ficando relegado a segundo plano. Trata-se de O Informante (The Insider).

The Insider

Baseado numa adaptação do livro The man who knew too much, o filme relata a história de um ex-executivo da indústria de tabaco, Jeffrey Wigand. Demitido por discordar da política empresarial de sua empregadora – que manipulava substâncias químicas nos cigarros para tornar mais rápida a dependência da nicotina -, Wigand torna-se um pária no mundo corporativo. As empresas malacas não querem contratá-lo por medo de que ele venha a revelar seus segredos mais inconfessáveis. Já as empresas responsáveis nunca viram com bons olhos altos executivos egressos da indústria de cigarro. Mesmo para arrumar empregos mais prosaicos, como um reles professor de química de adolescentes, Wigand encontra dificuldade.

Nesse meio-tempo, atravessa-lhe o caminho um sujeito tão obstinado quanto caricato: Lowell Bergman. Produtor-executivo da rede de televisão CBS, Bergman dirige o melhor e mais assistido programa de jornalismo investigativo da televisão norte-americana: 60 Minutes. Seu apresentador é o lendário Mike Wallace, ganhador de 21 emmys e modelo de entrevistador duro, mas elegante. Em seu currículo, entrevistas com Nixon, Kennedy e Reagan. Isso para não falar em Khomeini, Arafat, Sadat e Saddam.

Em crise de consciência pelo trabalho que desenvolvia na indústria de tabaco, Wigand tem o desejo íntimo de revelar o submundo desse ramo empresarial, no qual o cigarro não é outra coisa senão um “delivery device for nicotine“, ou, em bom português, um dispositivo de administração de nicotina. Mas há um porém: Wigand assinara um contrato de confidencialidade com sua antiga empregadora, pelo qual se obrigava a não revelar nada, absolutamente nada do que vivera e presenciara no seu trabalho. O filme mostra como Wigand encontra em Bergman o esforço necessário para quebrar a inércia e, por tabela, seu acordo de confidencialidade.

Obviamente, depois disso, o mundo cai sobre à cabeça de Wigand. Decidida a desacreditar seu ex-executivo, a empresa de tabaco à qual era vinculada elabora um dossiê recheado de denúncias falsas e forjadas para destruir a sua credibilidade. Além disso, através de instrumentos, digamos, “heterodoxos” de persuasão, sua ex-empregadora começa a infernizar a vida de Wigand, seja com perseguições em atividades prosaicas, seja colocando uma arma em sua caixa de correios.

Pra piorar, coisas estranhas começam a acontecer por trás das câmeras na CBS. Bergman e Wallace são chamados à sede corporativa da empresa. Em uma reunião com alguns executivos, Bergman e Wallace são informados de que a CBS pode sofrer um processo bilionário por parte da empresa de tabaco caso insista em levar a entrevista ao ar. De maneira sub-reptícia, “sugere-se” que eles abandonem a idéia.

Curioso, Bergman vai atrás de descobrir o que movia o medo repentino da CBS pela entrevista de Wigand. E a razão, claro, era o vil metal. Colocada à venda, a CBS estava para ser comprada pela Westinghouse. Obviamente, a ameaça de um processo multibilionário arruinaria a venda, levando os mesmos executivos que “sugeriram” a Bergman e Wallace que abandonassem a entrevista a perder alguns milhões de dólares. Abaixo, a cena do filme na qual essa revelação vem à tona:

Depois disso, o filme conta a saga de Bergman para, a um só tempo, salvar a reputação de Wigand e levar sua entrevista ao ar. Trata-se de uma verdadeira cruzada, na qual Bergman tem de enfrentar seus chefes, seus colegas de profissão e até mesmo o próprio Wigand. Obviamente, não se faz isso sem deixar uma legião de inimigos pelo caminho.

Dirigido por Michael Mann, O Informante traz um elenco magnífico, em atuações soberbas. No papel de Jeffrey Wigand, Russel Crowe consegue caracterizar todos os dramas daquele homem ordinário submetido a uma pressão verdadeiramente extraordinária. Para interpretá-lo, teve de engordar 20 quilos e incorporar os trejeitos do Wigand da vida real. Al Pacino, como sempre, rouba a cena. Sua interpretação de Lowell Bergman entra fácil na lista de melhores atuações do ator. Isso para não falar em Christopher Plummer interpretando o ícone Mike Wallace. Só ele mesmo para fazer com o que o público não fique com raiva da atuação dúbia de Wallace no meio da cruzada de Bergman para levar a entrevista ao ar.

Não pretendo vos contar o final do filme. Fica aqui apenas a recomendação para assisti-lo e descobrir que, na verdade, heróis não são aqueles personagens pelos quais torcemos nas histórias de desenho em quadrinhos. São pessoas de verdade.

Assim como eu. Assim como você.

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2 respostas para O Informante

  1. Mourão disse:

    Pensei que você fosse araujar e contar o final. Ótima dica, obrigado.

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