Entendendo a variação do PIB

Economia é sempre um tema árido. Embora seja do ramo de Humanas, guarda com sua prima Matemática, da área de Exatas, a mesma ojeriza do público em geral. De certa forma, entender os números e os indicadores a compor o seu quadro geral apresenta-se como tarefa tão difícil quanto compreender a noção de espaço quadridimensional. E quando se chega ao PIB, então, o cabedal envolvido no seu cálculo alcança as raias do paroxismo. Por isso mesmo, mídia e audiência aparentemente fizeram um pacto de não-agressão mútuo, pelo qual a primeira apenas divulga números a esmo sem os explicar, enquanto a segunda apenas os digere acriticamente, sem procurar entender como se chegou a eles.

Não creio que valha a pena aqui entrar em detalhes de como o PIB é calculado. Apenas para se ter uma idéia do trabalho que isso dá, o valor do PIB é apurado levando em consideração a produção e o consumo em 56 atividades, a envolver 110 produtos distintos. Obviamente, trata-se de um trabalho de aproximação, é dizer, ninguém conseguiria calcular em valores exatos o tamanho do PIB, porque isso demandaria uma quantidade absurda de gente para se aferir com exatidão quanto efetivamente se produziu em um determinado ano em toda a economia. Mesmo assim, existe razoável grau de segurança estatística quanto à aproximação realizada pelos institutos que calculam o PIB. Interessa, no entanto, entender o que significam as variações percentuais divulgadas pela imprensa.

Em termos gerais, existem basicamente três grandes tipos de cálculos que são feitos mundo afora para se aferir a taxa de expansão da economia: 1) a variação de um trimestre em relação ao trimestre imediatamente anterior; 2) a variação de um trimestre em relação ao mesmo trimestre do ano passado: e 3) a variação de quatro trimestres seguidos, ou, mais precisamente, a variação anual do PIB. A partir daí, pode-se entender o ritmo da economia e, a depender de ele estar em crescimento ou em recessão, ajustar os instrumentos de política econômica (juros, estímulos fiscais, câmbio, etc).

Para melhor explicar essas variações, vamos partir para um exemplo prático (sempre recorrendo a cálculos grosseiros, para facilitar o entendimento).

Imagine, por exemplo, o ano de 2010. Naquele ano, a economia de um determinado país tenha produzido em produtos e serviços o equivalente a:

– Primeiro trimestre: US$ 20 bilhões;

– Segundo trimestre: US$ 25 bilhões;

– Terceiro trimestre: US$ 30 bilhões;

– Quatro trimestre: US$ 25 bilhões.

Do primeiro para o segundo trimestre, a economia cresceu 25% (US$ 20 bi para US$ 25 bi). Do segundo para o terceiro, cresceu 20% (US$ 25 bi para US$ 30 bi). Já do terceiro para o quarto, houve queda de aproximadamente 16% (US$ 30 bi para US$ 25 bi).

Neste exemplo, portanto, o ano de 2010 terminou com uma base de US$ 100 bilhões em mercadorias e serviços produzidos pelo conjunto da economia.

No ano seguinte, em 2011, imagine que a distribuição da produção ocorreu da seguinte maneira:

– Primeiro trimestre: US$ 25 bilhões;

– Segundo trimestre: US$ 30 bilhões;

– Terceiro trimestre: US$ 25 bilhões;

– Quarto trimestre: US$ 20 bilhões.

Comparando-se o primeiro trimestre de 2010 (US$ 20 bi) com o de 2011 (US$ 25 bilhões), houve uma expansão da economia de 25%. No entanto, comparando-se o primeiro trimestre de 2011 com o trimestre imediatamente anterior (o quarto de 2010), verifica-se que a economia não saiu do lugar: ambos resultaram na mesma quantidade de mercadorias e serviços (US$ 25 bi).

Utilizando-se os mesmos números, embora o segundo trimestre de 2011 tenha resultado em expansão na comparação anual (US$ 30 bi contra US$ 25 bi em 2010), o resultado do terceiro e do quatro trimestres de 2011 fizeram com que, no cômputo geral, o total fosse rigorosamente o mesmo: US$ 100 bilhões. De 2010 para 2011, portanto, o crescimento foi zero.

Outro dado é preocupante na comparação entre 2010 e 2011. Embora, no total geral, o resultado tenha sido o mesmo, a quantidade de bens e serviços produzidos cai de forma consistente desde o segundo trimestre: de US$ 30 bi para US$ 25 bi; de US$ 25 bi para US$ 20 bi. Como há dois trimestres seguidos se produziu menos do que no trimestre imediatamente anterior, a economia encontra-se tecnicamente em recessão. Hora, portanto, de pensar em estímulos para reativar a atividade econômica.

Ainda que os números utilizados aqui sejam grosseiros, acredito ser possível ter uma idéia do significado dessas variações trimestrais e anuais do PIB. Com isso, espero que o noticiário econômico se vos apresente menos indigesto.

Anúncios
Esse post foi publicado em Economia e marcado , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Entendendo a variação do PIB

  1. Mourão disse:

    Não encontrei ( talvez tenha procurado pouco) nada afirmando que o Brasil está em recessão, principalmente porque, classicamente, isso ocorre quando em dois semestres consecutivos o país apresenta crescimento negativo, e não sei se isso ocorreu, nem ninguém me disse se é verdade, talvez até seja, então desculpe a minha ignorância. Além disso, economistas contestam o uso do PIB como medidor de uma recessão, pois recessão significa uma capacidade ociosa generalizada. É preciso, portanto, comparar o crescimento do PIB com o crescimento da capacidade produtiva das empresas. O que se sabe é que o impacto sobre o câmbio e os juros de um choque causado pela redução dos estímulos monetários pelo Federal Reserve (Fed) poderá empurrar a economia brasileira para a recessão em 2014, ou pelo menos dois trimestres seguidos de contração do Produto Interno Bruto (PIB) o que determinaria em tal período, ainda não previsto, um processo recessivo.

    • arthurmaximus disse:

      Leia de novo o post, Comandante. Não há nenhuma referência ao Brasil. O exemplo dado é inteiramente hipotético. Concordo quanto ao fato de que o PIB, sozinho, não diz lá muita coisa sobre a situação social do país. Que o diga a China, que cresce a dois dígitos há 30 anos e, além de imensamente pobre, não tem democracia. Discordo, no entanto, quanto à questão do fim dos estímulos fiscais nos Estados Unidos. Como já escrevi antes em pelo menos duas oportunidades (aqui e aqui), o fim da política do quantitative easing deveria ser algo a ser comemorado pelo Brasil, e não motivo de assombro. Mas, como não estamos exatamente bem das pernas… Um abraço.

  2. Mourão disse:

    Tem toda razão meu caro. Escrevi influenciado pela conversa entre você e uma colega que eu estava ouvindo e versava sobre o assunto PIB. Respondi como se estivesse lido no texto referência ao Brasil. Não se pode, ao se discutir, se levar pelas circunstâncias de momento que às vezes distorcem o próprio pensamento. Foi o meu caso, você está corretíssimo e obrigado pela chance de me explicar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.