Triste fim da Primavera Árabe – Parte II

Há pouco mais de um ano, este que vos escreve analisava a dissolução da Assembléia Constituinte egípcia e o traslado dos poderes legislativos para as mãos dos militares de Ramsés. Anuncia-vos, em tom funéreo, o “Triste fim da Primavera Árabe“. Agora, passado mais um golpe, aquilo que vagava por aí como um cadáver insepulto foi finalmente enterrado.

Desde a primeira vez na qual aqui se analisou a crise no Egito, dizia eu que as comparações entre a atual onda de manifestações no Oriente Médio e a chamada “Primavera dos Povos” era, do ponto de vista histórico, sem fundamentação nenhuma. A começar por uma constatação evidente: ninguém estava ali para pleitear uma democracia ao estilo ocidental, com tripartição dos poderes, rule of law e garantia de direitos fundamentais. O que os manifestantes queriam, na melhor das hipóteses, era a troca da guarda. No lugar de Mubarak, ou um governo fundamentalista islâmico ou um regime militar.

Ninguém queria democracia, em primeiro lugar, porque ninguém naquelas bandas do mundo vivenciou democracia em qualquer época. Desde os beduínos, passando por Maomé até chegar às monarquias/autocracias do século XX, os habitantes do Oriente Médio sempre foram governados por mão de ferro. Na maior parte dos países da região, “democracia” e outros termos são vistos simplesmente como uma tentativa disfarçada de “ocidentalização”, algo repudiado por 11 em cada 10 adeptos do islamismo – e eles são maioria em todos os sítios.

Em segundo lugar, mesmo quem queria democracia não tinha lá muito idéia do que essa idéia representava. E essa crise atual demonstra de forma cabal o descompromisso do povo egípcio com as noções mais básicas de respeito às regras democráticas. Havia um governo eleito pela maioria do povo e, até onde se sabe, fora sufragado em um pleito limpo. Um ano depois, sem haver qualquer causa objetiva que justificasse, por exemplo, um impeachment do presidente, as multidões voltaram às praças para pedir a cabeça de Mursi. E os militares, gostosamente, dispuseram-se a dobrar os sinos do golpe.

“Ah, mas se o povo apoiou, não pode ser considerado golpe”.

Em termos. O esquema pelo qual “se-eu-não-gosto-do-governo-vou-à-rua-para-depô-lo” é simplório demais para se enquadrar no conceito de democracia. O básico do sistema democrático é que um governo, uma vez legitimamente eleito, deve cumprir seu mandato até o final. Para depô-lo, somente através de mecanismos previstos na lei constitucional. Fora isso, é golpe puro e simples.

O mais engraçado foi ver os militares colocando os tanques nas ruas, depondo Mursi às armas e depois advertindo a população que “atos de violência não seriam tolerados”. Quem não consegue enxergar nessa declaração alguma contradição, de fato vai pensar que o que houve no Egito não foi mesmo um golpe.

O pior de tudo é que, assim como sempre, os militares continuam pairando sobre as instituições egípcias como um poder supralegal, que pode ser convocado a qualquer tempo em caso de “necessidade”. Havendo nas ruas gente suficiente para conferir às suas ações fumos de legalidade, eles estarão sempre a postos, prontos para dobrar os sinos de um golpe contra as instituições. Sob esse aspecto, feliz é o Brasil que, “graças” a 21 anos de regime militar, já se encontra vacinado contra gorilas.

Depois de ontem, os militares disseram que entregarão o poder a um novo governo, a ser eleito democraticamente pelas urnas. Prenuncia-se, claro, uma ampla coalizão que derrote os fundamentalistas da Irmandade Muçulmana e eleja um governo secular.

Mas fica no ar a pergunta: e se amanhã, com um governo secular eleito, os islamitas forem às ruas pedir a sua deposição?

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2 respostas para Triste fim da Primavera Árabe – Parte II

  1. Mourão disse:

    Eu já havia escrito, mas não ficou registrado. Mas também Senador,você só faz pergunta fácil.

  2. arthurmaximus disse:

    Acho que o comentário cortou no meio, Comandante. Acabei me perdendo.

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