Por que ganhou (?) Nicolás Maduro? Por Nabupolasar Alves Feitosa

Semana passada, coloquei aqui um post do meu amigo Nabupolasar, pai de Nabucodonossor.

Hoje, em mais um brilhante texto, ele analisa os prognósticos da Venezuela depois da vitória(?) apertada de Maduro nas eleições do último domingo.

Vale a pena desperdiçar um bom naco de tempo lendo-o.

Por que ganhou (?) Nicolás Maduro?

O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) anunciou o resultado das eleições para presidente da República na Venezuela dando a Nicolás Maduro Moro a vitória sobre Henrique Capriles Radonsky.

A vitória (?), mais difícil de toda a história do chavismo, só foi possível devido a várias circunstâncias que não existiriam em um país onde as instituições funcionam livres de interferências superiores.

Com problemas de inflação a mais de 20% ao ano, violência em elevadíssimos níveis, desabastecimento da ordem de 20% em média, queda na produção industrial e agrícola, serviços públicos ruins, programas sociais praticamente sem funcionar – até mesmo a Bairro Adentro padece de descrédito e ao mesmo tempo é testemunho veraz da incompetência –, uma avalanche de chavistas decidiu votar em Capriles, que foi derrotado, dentre outros motivos, pelo exposto abaixo:

– o CNE não investiga, pune, multa ou aplica qualquer sanção a arbitrariedades, ilegalidades ou crimes cometidos pelos chavistas, apesar da avalanche de denúncias, inclusive com provas testemunhais, fotografias e filmagens dos atos contrários à legislação cometidos pelos chavistas;

– a oposição foi proibida de panfletar na Universidade Simón Bolívar sob a alegação de que aquela universidade, criada por Chávez, pertencia à revolução, sendo, pois, um espaço reservado para os oficialistas fazerem seus proselitismos. “Vão fazer campanha em outro lugar, aqui não”, disse a ministra para a educação universitária;

– várias mesas de propaganda foram montadas nos órgãos públicos com funcionários vestidos de camisetas vermelhas com o nome Maduro entregando material de propaganda;

– a Venezolana de Television (VTV), canal público, passava 24h fazendo propaganda para Maduro ou detratando Capriles;

– Nicolás Maduro esteve por cerca de 50 horas em cadeia de nacional de rádio e televisão;

– descobriu-se que um membro do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), governista, tinha a senha das urnas eletrônicas, denúncia sobre a qual Tibisay Lucena, presidente do CNE, calou-se e depois de dois dias veio a público dizer que isso não representava violação à segurança do pleito;

– o ministro da defesa, em clara violação à Constituição, declarou voto e fez campanha para Nicolás Maduro, inclusive ameaçou que não aceitaria o não reconhecimento dos resultados da eleição e que usaria a força, se necessário, para garantir a vontade do povo venezuelano;

– Maduro fez a campanha inteira sobre o féretro de Chávez, usando a voz do falecido presidente pedindo voto para seu afilhado político em vários pontos do país, nos comícios e na televisão;

– bandos de criminosos ameaçaram e atentaram contra vários eventos organizados pela oposição, deixando mortos e feridos, inclusive dentro da Universidade Central da Venezuela (UCV), a mais tradicional do país.

– a Companhia Anônima Nacional de Telecomunicações (CANTV), empresa pública nacionalizada por Chávez, que passa por sérios problemas financeiros, doou 1,8 milhões de bolívares para a campanha de Nicolás Maduro;

– durante a campanha Maduro anunciou um aumento do salário mínimo, usou indiscriminadamente as cadeias de rádio e televisão e obrigou os funcionários públicos a participar dos eventos em prol de sua candidatura;

– várias pessoas foram vítimas do voto assistido, permitido quando o eleitor tem dificuldade de exercer seu direito ao voto, mas amplamente usado no dia 14 de abril com grupos de até 12 pessoas acompanhando eleitores à cabine de votação sem que o votante tivesse qualquer dificuldade para votar;

– durante todo o dia 14, grupos chavistas fizeram propaganda nas ruas de Caracas, portanto bandeiras e gritando o nome de Maduro, sem qualquer proibição;

– em alguns locais as autoridades não permitiram o acesso dos fiscais para fazer a chamada auditoria popular, como o caso da escola José Ángel Álamo, no município El Hatillo, em Caracas;

O que se pode considerar como eleição limpa na Venezuela é apenas o momento do voto, mas todas as condições são altamente injustas para a oposição, dando assim uma vantagem sem igual para quem está no cargo.

Apesar de tudo isso, se a eleição tivesse mais alguns poucos dias de duração, a vitória de Capriles seria inevitável. Maduro, ungido por Chávez, tinha cerca de 14,4% de vantagem sobre o opositor no dia 19 de março. No início da campanha, a vantagem tinha caído para cerca de 10%. Uma semana antes da votação, Maduro só contava com 8% à frente de Capriles. O resultado, com uma diferença de apenas 1,5%, mostra que uma campanha um pouco mais duradoura teria dado a Capriles a presidência do país.

De toda sorte, o resultado é uma vitória da oposição sobre o chavismo. Em 2012, Chávez ganhou em 21 estados e no Distrito Capital, ao passo que Capriles saiu vencedor nos estados de Mérida e Táchira. Agora, a oposição saiu vitoriosa em 8 estados e onde perdeu foi sempre por uma margem muito estreita. Quando vierem as eleições para a Assembleia Nacional (AN) daqui a dois anos, se a oposição mantiver esse ritmo de crescimento, ela conseguirá obter a maioria do parlamento e chegará às próximas eleições presidenciais com claro favoritismo, praticamente imbatível, isso se não houver uma revolta popular que derrube Maduro pela sua incapacidade de governar a Venezuela.

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Uma resposta para Por que ganhou (?) Nicolás Maduro? Por Nabupolasar Alves Feitosa

  1. Mourão disse:

    Meu caro Nabu, eu acho que não foi uma vitória sobre o chavismo, pois este desapareceu ou tende a desaparecer com a morte do “comandante” Chavez. Foi, de fato, uma vitória da oposição sobre um candidato fraco e demagogo, e uma demonstração clara de que o povo( nome tão vilipendiado por estas paragens, no Brasil nem se fala) tem capacidade de discernimento, embora historicamente haja sido, normalmente em situações anômalas e até mesmo dramáticas( veja a Alemanha da década de 1930) enganado por falsos líderes, travestidos de profetas.

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