As viagens no tempo

Desde quando Albert Einstein revolucionou os conceitos de tempo e espaço e mudou os paradigmas da física para adotar a velocidade da luz como único valor absoluto do Universo, cientistas e leigos do mundo inteiro voltaram a fazer-se uma pergunta: será possível viajar no tempo?

No romance de H.G Wells, Alexander Hartdengen constrói uma máquina capaz de operar a façanha. Entra-se por um lado e, do outro, sai-se em outra dimensão temporal. Tudo simples e fácil. Na vida real, porém, a coisa muda de figura.

Pela Teoria da Relatividade, viajar no tempo é até uma possibilidade factível. “Basta” construir uma máquina que viaje muito próximo à velocidade da luz. Como o tempo para quem está na nave passará muito mais devagar do que para quem está fora, quem está dentro dela terá a sensação de “viajar” no futuro. Em um cálculo grosseiro, se 5 tripulantes embarcassem em uma viagem a uma estrela próxima que durasse 5 anos, a bordo de uma espaçonave que viajasse a 99,99% da velocidade da luz, retornariam a terra já tendo se passado 500 anos. “Sem querer”, teriam pulado algumas centenas de anos no futuro.

Para o passado, no entanto, a porca entorta o rabo. O próprio Einstein jamais respondeu diretamente à pergunta. É possível que ele mesmo não tivesse resposta para o problema. Mas por que viajar para o passado é tão problemático?

Bom, como todo mundo sabe, o tempo é uma invenção humana. É dizer: na natureza, o “tempo” não existe do modo como o concebemos. A medida de “tempo” no Universo é o tamanho da desorganização das partículas do espaço; um processo conhecido como entropia. Sob esse ângulo, o “passado” e o “futuro” são separados apenas pela quantidade de desordem da matéria.

E daí?

Daí que, até onde se sabe, o processo de entropia é irreversível. Quer dizer, a desordem das partículas no espaço só tende a aumentar, sendo impossível reverter essa tendência. Por isso, diz-se que a “flecha do tempo” dirige-se em um só sentido: para a frente. Logo, segundo esse entendimento, viajar ao passado seria impossível.

Há, claro, cientistas empenhados em desenvolver hipóteses teóricas que tornem plausível uma viagem no tempo para o passado. Dobras na curvatura do espaço, “buracos de minhoca”, “atalhos” via buracos negros, enfim… Há muitas e variadas teses a defender que é, sim, possível viajar para ver tempos já vividos.

O problema, contudo, não reside unicamente nas dificuldades práticas de colocar qualquer uma dessas hipóteses em ação. A grande questão é resolver os paradoxos suscitados com as viagens para o passado. O mais emblemático e didático desses é o conhecidíssimo “paradoxo do avô”. A proposição é simples:

Imagine que você volte 70 anos no tempo, para ver como viviam seus avós antes de se conhecerem. Ao chegar àquela época, desentende-se com seu avô e o mata. Isso, obviamente, lança por terra o plano original, segundo o qual seu avô encontra sua avó, apaixona-se e ambos têm filhos (entre eles, seu pai). Se seu avô morreu antes de conhecer sua avó, seu pai não nascerá. Se seu pai não nascer, você também, por tabela, vai para o espaço. Mas se você não vir a existir, como poderá voltar 70 anos no tempo e matar o seu avô?

Do ponto de vista prático, esse é um problema essencialmente humano. Os paradoxos são contradições lógicas, criadas pela mente humana. A natureza desconhece paradoxos. Ou, de forma ainda mais clara, se alguma proposição criativa conduz a um paradoxo, a resposta é simples: ela não é possível.

Assim, há fundamentalmente três possibilidades para resolver o paradoxo do avô e tornar – ao menos em tese – possível viagens no tempo para o passado:

1 – A hipótese dos universos paralelos:

Quem assistiu De volta para o futuro II não vai se admirar com ela. Em suma, ao voltar no tempo e matar seu avô, a linha do tempo se separará do seu curso original, dando origem a uma nova seqüência, uma realidade paralela. Essa realidade seguiria seu curso, como o próprio nome indica, paralelamente à realidade dentro da qual seu avô não foi morto. Isso permitiria que você viajasse no tempo e desse curso a um “novo futuro”.

2 – A hipótese da impossibilidade de interação:

Essa é um pouco mais complicada de explicar. Nesse caso, mais parecido com a teoria de Jeff Goldblum em Jurassic Park (life finds a way Para resumir, basta dizer que, mesmo que você volte ao passado e tente alterar o curso natural das coisas, ainda assim você não conseguirá matar seu avô.  O máximo que você vai conseguir é alterar algum aspecto secundário da história. Tipo: eles vão se conhecer numa lanchonete, não no cinema, como tinha acontecido antes. Ou seja: de alguma outra forma, por mais que você lute contra, ele conhecerá sua avó e eles terão filhos. Quem já assistiu Nimitz – De volta ao inferno vai entender do que se trata.

3 – A hipótese da impossibilidade de mudar o sentido da flecha do tempo:

Como em todo problema lógico, uma das formas de solucionar o paradoxo do avô é não o solucionar. Em outras palavras, se não há resposta possível para impedir o paradoxo do avô, é porque a natureza já o resolveu: não é possível viajar no tempo para o passado. A flecha do tempo não pode ter seu sentido alterado. Assim, não há qualquer possibilidade de o paradoxo se formar.

Haverá algum dia uma resposta para essa questão? Provavelmente não. Por conta das dificuldades tecnológicas, dificilmente conseguiremos um dia colocar em prática as hipóteses imaginadas pelos cientistas. Assim, continuaremos divagando sobre teses teóricas, tentando elucidar um mistério que a natureza jamais se propôs a colocar.

Pois, se é possível viajar para o passado, por que ninguém do futuro ainda nos veio dar o ar de sua graça?

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