Oscar Niemeyer, o homem

Depois de alguns contratempos, hoje retomo as atividades normais aqui no blog.

E, claro, devo tratar de um tema que aqui jamais poderia passar em branco: a morte de Oscar Niemeyer.

Muito já se disse sobre Niemeyer e sua obra, principalmente na semana passada, quando ele foi deste para o outro plano da existência. Como seria de se esperar, a morte operou com Niemeyer quase um endeusamento. Subitamente, todos os defeitos desaparecem e o sujeito é alçado à condição de santo. Comunista convicto, ateu por definição, Niemeyer dificilmente concordaria com um epílogo tão piegas.

Niemeyer era um sujeito um tanto teimoso. Sua obsessão na arquitetura era a busca da beleza; beleza que ele enxergava fundamentalmente na curva; curva que só era permitida com a manipulação precisa do concreto armado. Niemeyer não procurava o meio-termo mais preciso entre o belo e o funcional, como a maioria dos arquitetos. O prédio tinha que ser bonito. Ponto. Dane-se a funcionalidade.

Obviamente, a busca obsessiva pela perfeição estética dos edifícios que projetava, com o aparente desprezo pela sua funcionalidade, acabou trazendo diversas críticas a suas obras. Tendo visitado grande parte de suas obras na capital federal e em algumas outras cidades do Brasil, posso dizer que as críticas não são inteiramente sem razão.

Niemeyer tinha quase um fetiche pelos vãos livres, pelos grandes espaços dominados pelo nada. Se isso pode ser funcional para casas de show ou auditórios,  dificilmente o é para ambientes “normais”, habitados por seres humanos. Pra piorar, Niemeyer tinha aversão ao verde. Como ele mesmo gostava de repetir, “arquitetura é concreto. Quem quer ver verde vai ao Jardim Botânico”. Por essas e outras, grande parte de seus críticos o acusava de ser “um grande escultor, mas um péssimo arquiteto”.

Mas Niemeyer não estava nem aí. Firme em suas convicções, manteve seu estilo de desenhar e sua ideologia praticamente inalterados por toda a sua vida. Se a arquitetura de Niemeyer era pouco funcional, por outro lado era extraordinariamente bela, e qual cidade não quer ter “um Niemeyer” para servir-lhe de grife?

No entanto, me interesso menos pelo arquiteto Niemeyer do que pelo homem Oscar. Esse, sim, pode-se homenagear sem restrições.

Mesmo sendo comunista declarado, Niemeyer – assim como a maior parte das figuras ilustres, como Chico Buarque – passou ao largo dos porões da ditadura. Os gorilas podiam ser estúpidos, mas não eram tapados. Temiam a repercussão negativa resultante de uma eventual prisão do arquiteto mundialmente famoso. Os milicos dele guardavam distância, e ele, como vingança, recusava-se a projetar novos edifícios públicos para Brasília, o que, como conseqüência, redundou em prédios horrorosos, como o do aeroporto da cidade.

Mesmo estando livre do pau-de-arara, vez por outra Niemeyer era aporrinhado pelos generais. Certa vez, ao voltar ao Brasil durante seu exílio (in)voluntário, chamaram-lhe para “prestar esclarecimentos” em um dos famosos IPM’s abertos contra os adversários do regime. Durante o interrogatório, o inquisidor quis saber como é que um sujeito que era arquiteto e não tinha emprego no Brasil podia ser tão rico. Nas entrelinhas, estava implícita a sugestão de que Niemeyer recebia o famoso “Ouro de Moscou”, codinome para a ajuda soviética prestada aos simpatizantes da causa comunista pelo mundo para que praticassem atos de subversão. Para explicar a origem de tanto dinheiro, Niemeyer deu uma explicação simples:

“Eu dou o rabo, General”.

Ah, Niemeyer! Quando tereis outro igual?

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