O reconhecimento da Palestina

Ontem, exatos 65 anos depois da histórica sessão da ONU, presidida por Oswaldo Aranha, em que se aprovou o Plano de Partição da Palestina, foi aprovado o reconhecimento da Autoridade Nacional Palestina como “Estado Observador” das Nações Unidas. Finalmente, os palestinos deixaram de ser tratados exclusivamente como um povo apátrida, vagueando de um lado pro outro enquanto mísseis israelenses caem sobre suas cabeças, e passaram a ser reconhecidos como uma “nação”.

Verdade seja dita: do ponto de vista prático, a elevação da ANP à condição de Estado Observador não muda nada. Como país, a Palestina ainda não existe, pois nenhum outro estado o reconhece como tal. Tampouco o novo status garante aos palestinos os mesmos direitos garantidos aos estados-membros da ONU. Mesmo assim, há vários e poderosos efeitos simbólicos por trás dessa votação.

Em primeiro lugar, o apoio maciço da comunidade internacional demonstra o tamanho do isolamento de Israel e de seu principal apoiador, os Estados Unidos. Dos 193 países com direito a voto, nada menos do que 138 posicionarem-se a favor do reconhecimento da Palestina. 41 se abstiveram. Em alguns casos, por pressão americana. Em outros, porque acreditam sinceramente que não haverá paz sem um acordo real com o Estado Judeu. Apenas 9 votaram contra, dentre eles potências como a Micronésia, as Ilhas Marshall e a República de Palau.

Em segundo lugar, isso significa que a tática de “deixar-como-está-pra-ver-como-é-que-fica” já deu o que tinha de dar. Ninguém mais suporta que o problema da ocupação ilegal daquilo que deveria ser um estado árabe seja tratado a golpes de barriga. A solução para a paz passa necessariamente pelo reconhecimento da Palestina como um estado independente, e ninguém acredita que a inércia cuidará de resolver as diferenças entre judeus e árabes. Daí o “primeiro passo” no reconhecimento da Autoridade Nacional Palestina, para ver se a inércia é quebrada e os judeus aceitam voltar à mesa de negociações para acordarem uma solução definitiva para o problema.

O grande receio dos israelenses com a criação de um estado árabe é a abertura de portas nos diversos foros internacionais. A ocupação ilegal e a instalação de assentamentos judeus nas áreas ocupadas dificilmente seria tolerada caso a área em questão integrasse o futuro estado da Palestina. Pra piorar, com o reconhecimento do Estado Árabe, as destruições periódicas e os massacres promovidos pelos israelenses na Faixa de Gaza, por exemplo, teriam de passar pelas convenções de guerra, sujeitando ambas as partes a condenações pelo Tribunal Penal Internacional.

Ao invés de responderem com sensatez e preparar o melhor caminho para a travessia rumo ao inevitável – a “solução dos dois estados” – israelenses e americanos reagiriam à sua maneira: com rancor. Os americanos ameaçam cortar a ajuda financeira provida aos palestinos e até mesmo à própria ONU, e os israelenses informaram que expandirão as colônias judias na Cisjordânia.

A continuarem com essa linha, Estados Unidos e Israel, que outrora eram tidos e havidos como campeões da civilização frente a barbárie, acabarão se tornando párias da comunidade internacional.

Quando isso acontecer, terão se tornado tudo aquilo que sempre renegaram.

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