Cidade de Deus

Há exatos 10 anos era lançado no Brasil um dos maiores fenômenos de bilheteria da história do cinema nacional: Cidade de Deus.

Em qualquer lista de cinéfilos, O Poderoso Chefão I e II e Os Bons Companheiros figuram, não necessariamente nessa ordem, nos três primeiros lugares quando o assunto é o melhor filme de máfia de todos os tempos. Nos dois primeiros O Poderoso Chefão, Francis Ford Coppolla perpassa – de modo um tanto glamourizado, é verdade – o submundo do crime. Explica como se formam as relações de confiança e de como a máfia, ao fim e ao cabo, funciona como um negócio. Um negócio lucrativo na exata medida em que se baseia na violência. Mas, ainda assim, um negócio.

Nos Bons Companheiros, o tema de fundo é mais ou menos o mesmo. A história de um menino pobre que cresce em uma realidade na qual ser um gângster era ser alguém em um bairro cheio de Zé Ninguéns. A abordagem original, com a narração de Ray Liotta ao fundo, brilha ao explicar aquilo que o FBI “jamais pôde entender”: o que a máfia fazia era oferecer proteção para quem não podia pedir proteção à polícia. Ou, como sintetiza Henry Hill, “a police department for wiseguys“.

Embora não seja propriamente sobre a máfia, afirmo sem o menor receio de errar: Cidade de Deus está, na temática abordada, no mesmo nível desses três clássicos do cinema. Cidade de Deus representa uma das maiores viradas paradigmáticas na sétima arte brasileira.

Em primeiro lugar, pela linguagem; a linguagem do povo das favelas, com seus erros de português, o sotaque carioca e as falas rápidas, entrecortadas – por que não? – por uma infinidade de palavrões.

Em segundo lugar, pela montagem. Não seqüencial, com tomadas rápidas e mudanças de foco repentino, Fernando Meirelles consegue transportar o espectador para “dentro” da tela, transferindo a mesma atmosfera de tensão pela qual passam as personagens principais da trama.

Em terceiro lugar, pela absoluta falta de estrelas no filme. Nenhum dos grandes medalhões da TV e do cinema nacional integraram o elenco. Quer dizer, há a Alice Braga, mas à época era não era, assim, tão conhecida. Na verdade, acho que Cidade de Deus serviu para catapultá-la ao estrelato em Holywood, pois depois disso participou de blockbusters como Eu sou a Lenda e Ensaio sobre a Cegueira. Penso eu que o casting deve ter sido proposital. O grande mote do filme é a história que ele conta, história esta que poderia ser eclipsada com a presença de algum super-astro do cenário nacional.

A trama inicia-se com a transferência de uma população pobre para um novo “conjunto habitacional” no Rio de Janeiro: a Cidade de Deus. Como conta Buscapé, personagem central do filme, uma forma do governo da época tentar se livrar dos pobres, mandando-os para longe do centro da cidade.

Fernando Meirelles brilha ao mostrar como essa política de segregação, associada ao completo abandono, fomenta a criação de tipos como Dadinho (quer dizer, Dadinho, não, “Zé Pequeno, porra!”). Só mesmo a ingenuidade ou a ignorância explicam como alguém pode acreditar que tipos como Zé Pequeno surgem por geração espontânea. É a demissão do Estado de seu dever de prover serviços e fazer-se presente para a população que estimula a pequena bandidagem a transformar-se em crime (mal) organizado.

Um dos pontos altos do filme está na explicação de como o tráfico funciona como um negócio, com direito até a “plano de carreira”: de vapor para fogueteiro; de fogueteiro para soldado; de soldado para gerente de boca. A estruturação do negócio estabelece uma relação quase simbiótica com o morador honesto e pacato da favela. Sem polícia a quem recorrer, o cidadão comum vai buscar no traficante a prestação de serviço que lhe é negado pelo Estado. É graças a ele e à necessidade de garantir um ambiente seguro para que o viciado venha até a favela alimentar seu vício que a pequena bandidagem vai aos poucos sumindo e sendo expulsa da favela. Com o tempo, o poder se consolida nas mãos dos traficantes, que se tornam os “Donos de Morro”.

À falta de alternativa, sem educação e sem emprego, o jovem na favela espelha-se nos grandes traficantes como uma forma de subir na vida. E assim, matando e morrendo, a violência vai se perpetuando em um pedaço do mundo que o Estado preferiu esquecer que existe.

Para quem ainda não viu, é de audiência obrigatória. Para quem já assistiu, vale a pena rever. Uma aula de sociologia e dinâmica social em duas horas de filme. Eis a grande obra que conseguiu construir Fernando Meirelles.

Abaixo, o trailer do filme:

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