A dura vida de ser compositor no Brasil – Parte II

Escolher uma profissão é sempre uma tarefa tormentosa. Será que é isso que eu quero da vida? Será que vou me satisfazer com isso? Vou conseguir tirar do meu trabalho o pão para comer? Essas são as perguntas mais comuns.

Mas, de vez em quando, alguém se pergunta também: será que vou ser reconhecido na minha profissão?

Como já escrevi antes, de todas as profissões possíveis, provavelmente aquela que encontra a mais cruel resposta para essa pergunta é a de compositor. Sim, porque em um país onde nasceram, simultaneamente, Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Gilberto Gil, Caetano Veloso e por aí vai, ser compositor reconhecido por ser tudo, menos uma tarefa fácil.

Pois bem. Carioca de nascimento, brasiliense por opção (tem doido pra tudo), Oswaldo Montenegro resolveu encarar o desafio.

Autodidata, Oswaldo Montenegro nunca freqüentou escola de música. Tudo que sabe, aprendeu de ouvido ou de ver os outros tocarem. Amante da boemia, é possível que Oswaldo Montenegro tenha obtido inspiração nas aves soturnas da noite para escrever algumas das mais belas canções do repositório nacional.

A primeira canção a estourar nas paradas foi Bandolins.  Uma canção triste, quase um fado, Bandolins retrata a vida desesperançada de uma mulher da noite, que encontra uma sobra de alegria valsando só na madrugada, se julgando amada aos som dos bandolins. Talvez por isso mesmo, a personagem de Marisa Orth no seriado Os Aspones gostava de repetir que “dava pra qualquer um se ouvisse Bandolins“.

Pouco tempo depois de Bandolins, Oswaldo Montenegro voltou às paradas de sucesso com Léo e Bia. Uma canção curta, despretensiosa, que à primeira vista retrata uma história de amor entre dois jovens, mas que, no fundo, reflete mesmo é a paixão do seu compositor por aquele pedaço desértico do centro brasileiro.

Por isso ela começa no centro de um planalto vazio, dizendo que qualquer maneira de amar varia, mas, provavelmente por estarem em Brasília, Léo e Bia souberam amar. E nem mesmo a distância de Brasília de Belém do Pará seria capaz de separá-los.

Já no final da década de 90, Oswaldo Montenegro, antes uma figura restrita aos círculos mais intelectuais, caiu definitivamente no gosto da malta quando teve uma de suas canções – Lua e Flor – escolhida para ser o tema romântico de Sasá Mutema (Lima Duarte) e a Professorinha Clotilde (Maitê Proença) na novela O Salvador da Pátria.

Mas, na minha opinião, a mais bela canção de Oswaldo Montenegro é uma um tanto desprezada pelo grande público. Intuição é uma verdadeira aula de composição musical, um roteiro mastigado de como fazer canções que a um só tempo incitem a mente e toquem o coração.

Oswaldo começa explicando por onde o sujeito deve começar e o até tom a seguir:

Cante uma canção bonita

Falando da vida em ré maior

De um lado, Oswaldo Montenegro dá uma batida no cravo (coração):

Cante uma canção que agüente

Essa paulada e a gente bate o pé no chão

Não é preciso sequer ter o compromisso estreito de falar perfeito. Nem sequer ser coerente ou não.

E, aí, bate na ferradura (mente):

Cante uma canção daquela

De filosofia e mundo bem melhor

Pra deixar ainda mais claro que a perfeição estética é de todo dispensável, Oswaldo ressalta que a canção dispensa o verso estilizado, o verso emocionado. Basta bater o pé no chão.

Depois de tudo isso, nasce uma canção rimada, da voz arrancada ao nosso coração.

Finalmente, o artista consegue seu objetivo:

Hoje, quem não cantaria

Grita poesia

E bate o pé no chão

Olhando assim, parece até fácil. Mas só quem se dispõe a ouvir com dedicação a obra deste grande compositor brasileiro pode entender que falar com o coração nem sempre é fácil.
Nem sempre se é ouvido, e muito menos reconhecido.

Ainda mais no Brasil…

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