Emagrecer tornou-se uma das obsessões da sociedade moderna. É até natural. Afinal, o padrão de modelo de beleza vigente impõe corpos enxutos e curvilíneos, réplicas bem ou mal acabadas dos ícones que aparecem nos comerciais, nos filmes ou nas novelas de TV.
Fora isso, contribui para essa obsessão a, digamos, “descoberta” dos malefícios causados pelo excesso de peso: diabetes, pressão alta, dores e lesões nas articulações e por aí vai. Coisa que não é segredo pra ninguém há mais de meio século, mas que de repente virou pauta da agenda médica considerada a verdadeira epidemia de obesidade por que passa a população mundial.
As causas dessa epidemia são mais ou menos conhecidas: as mudanças no nosso estilo de vida. Há mais facilidade de acesso à comida, e a comida servida é mais gordurosa. E, embora a comida esteja mais acessível, há cada vez menos tempo para fazer uma refeição decente. Na falta de tempo para cozinhar ou mesmo só pra comer, a solução é recorrer a comidas semiprontas ou fast foods. Pra piorar o quadro, há menos dispêndio físico: andamos mais de carro do que a pé, não precisamos mais sequer levantar para mudar o canal de TV, ninguém lava roupa a não ser na máquina, etc. Em suma: ganhamos cada vez mais calorias e gastamos cada vez menos.
A solução está dada há milênios: fazer dieta e aumentar o gasto calórico através de exercício. Para os mais compulsivos, isso e mais um estrito acompanhamento psicológico.
Mas, como o que mais se faz na “modernidade” é vender facilidades, o longo, penoso e tortuoso caminho da perda paulatina de peso através da reeducação de hábitos foi subitamente substituída por uma operação supostamente milagrosa: a gastroplastia, nome técnico das conhecidas cirurgias de redução de estômago.
Há várias técnicas para alcançar esse resultado, desde a introdução de “balões” no estômago do paciente, passando por envolvê-lo com um “anel” e, no limite, o corte – leia-se: extração, mesmo – de parte considerável do estômago. Não pretendo aqui discorrer sobre as técnicas e suas variantes, até porque não sou médico. Meu intuito é somente chamar a atenção para o drama escondido por trás da saída fácil vendida por vários médicos inescrupulosos.
Pra começo de conversa, a gastroplastia é um cirurgia radical que somente deve ser indicada em último caso. E que raios será esse “último caso”? O sujeito tem ser obeso mórbido, isto é, ter índice de massa corpórea superior a 40, e tem de sofrer de algum tipo de patologia que implique risco de vida do qual, sem a diminuição do peso, pode resultar o óbito (diabetes ou pressão elevadas, risco cardíaco acentuado, etc.). Em suma: somente neste tipo de caso – obeso mórbido com risco de morte por conta do excesso de gordura – a gastroplastia seria indicada.
Fora isso, antes e depois da cirurgia, aconselha-se acompanhamento psicológico para evitar recaídas e ajudar na manutenção dos benefícios alcançados com a intervenção cirúrgica. Nunca – NUNCA mesmo – por razões unicamente estéticas a cirurgia deveria ser feita. Nesses casos, seria obrigação do médico rejeitar o paciente e negar a realização da cirurgia.
O problema é que nem sempre isso é observado. Em muitos casos, médicos safados recebem pacientes que nem sequer se enquadram na categoria de obesos mórbidos e, mesmo assim, submetem-os à gastroplastia pensando só no dinheiro. Já ouvi casos de pacientes que foram recebidos no consultório médico com peso “insuficiente” para a cirurgia aos quais foi “receitado” o aumento de peso para alcançar o índice de 40%. Por quê? Porque com menos de 40% de IMC os planos não cobrem a cirurgia.
Além disso, há também os pacientes preguiçosos e que acham que a cirurgia solucionará todos os seus problemas. Pensam: “Ah, pra que me submeter ao estresse de uma dieta e de exercícios se eu posso resolver tudo com algumas horas numa mesa de cirurgia?”
Em um primeiro momento, acontece o “milagre”. Sem poder comer pela limitação física de espaço no estômago, o sujeito emagrece na marra. Mas milagre nenhum ocorreu. Na cabeça, o sujeito continua gordo. Deixa de comer não porque se reeducou ou porque mudou de hábitos, mas porque simplesmente não consegue. Trata-se, na verdade, de condenar um “gordo” a viver em um corpo de um “magro”.
Mas, como o organismo é mais forte do que a limitação física, com o tempo acaba descobrindo maneiras de driblá-la. Por isso alguns recém-operados passam a tomar leite condensado puro, como se fosse água, somente para aumentar o nível de ingestão calórica. E, pouco a pouco, vão “testando” os limites do estômago reduzido, de tal modo que, com o tempo, ele acaba “elastecendo” de novo e açabarcando uma quantidade maior de comida.
Resultado? Em um ano ou dois, os 500 quilos que o sujeito perdeu no começo voltam na forma de 750 no corpo do sujeito operado. Não sei se já fizeram alguma pesquisa do índice de sucesso da gastroplastia, mas provavelmente menos de 50% dos pacientes conseguem manter o peso ideal no longo prazo depois de fazê-la, o que lhe confere um índice de confiabilidade equivalente ao jogo de cara e coroa. Só isso já deveria fazer com que a cirurgia fosse considerada somente quando não houvesse mais alternativa. Mas, mesmo assim, ela continua por aí, firme e forte, fazendo a alegria permanente de médicos inescrupulosos e a alegria passageira de pacientes desinformados ou descompromissados.
Até pouco tempo atrás, úlcera era tratada com cirurgia. Hoje, já se sabe que uma bactéria (H. Pylori) é a sua causadora, permitindo o tratamento com antibióticos, sem intervenção cirúrgica. Os médicos de hoje devem olhar para os de antigamente e pensar no grau de barbarismo da técnica anterior.
Com a gastroplastia, é possível que se passe o mesmo. Como diz Ana O., daqui a alguns anos os médicos do futuro olharão para a farra desenfreada de gastroplastias e pensarão: “O que era que esses caras faziam?”
É esperar pra ver.