A promoção da ignorância, ou A praga do politicamente correto – Parte II

Quando você pensa que já viu de tudo na vida, eis que a realidade te esbofeteia e mostra que só os mais soberbos pedantes podem imaginar esgotada sua capacidade de espantar.

Lendo o noticiário de hoje, vi que o Ministério Público Federal ingressou com uma ação na Justiça Federal de Uberlândia, nas Minas Gerais, para – acredite se quiser – retirar o Dicionário Houaiss de circulação. A acusação? Racismo.

Em 2009, um sedizente cigano protocolou uma “denúncia”. Segundo ele, no Houaiss o verbete é associado a significados depreciativos e preconceituosos, como “aquele que trapaceia; velhaco, burlador”, assim como “aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro, agiota, sovina”.

Ao lado do Houaiss, outros dicionários de língua portuguesa trariam semelhantes descortesias com o povo cigano. Segundo o procurador responsável pelo caso, apenas a editora do Houaiss teria “insistido” em manter o perjúrio. Muito embora o dicionário informe a quem o consulta que tais significados são utilizados no sentido pejorativo, pouco importa para o representante do MPF. O que importa é “proteger a honra do povo cigano” do “caráter discriminatório assumido pela publicação”. Daí a ação, na qual se pede, além da retirada de circulação, a condenação da editora a pagar danos morais coletivos no valor de R$ 200.000,00, a serem destinados ao povo cigano.

Pra começo de conversa, dicionário não difunde coisa alguma. Salvo recordar aos pobres de espírito a grafia e o significado correto do vocabulário do vernáculo, não há no dicionário o propósito de incutir em seu leitor qualquer idéia. Quem consulta o dicionário não vai em busca de opiniões. Vai em busca da grafia correta ou do sentido corrente de alguma palavra. Quem se dedica a ler um dicionário não sairá de lá com um tratado filosófico sobre a discriminação ou sobre a formação do cosmos. Na melhor das hipóteses, conseguirá soletrar, sem ajuda, “epistemofobia”.

Quando o Ministério Público Federal procura demitir o dicionário de sua função básica, não se pode dizer outra coisa senão que está a promover a ignorância. Quando o vulgo popular associa a um vocábulo – bem ou mal – algum sentido, o inculto leitor tem o direito de saber que sentido é este. Não se trata de reproduzir o eventual racismo ou xenofobia de quem se utiliza pejorativamente do termo, mas simplesmente de fazer conhecer ao distinto público que determinado vocábulo pode ter determinada conotação.

Quer um exemplo?

No Campeonato Brasileiro de 1997, Edmundo e o resto do time do Vasco jogaram mal as primeiras partidas. Numa delas, contra o América de Natal, o árbitro cearense Dacildo Mourão expulsou Edmundo de campo. Revoltado, ele saiu de campo xingando o árbitro dizendo: “A gente vem na Paraíba, um Paraíba apita, só pode prejudicar a gente!”

Fora a ignorância geográfica, Edmundo reproduziu um sentimento discriminatório presente em muitos dos que moram do sul e sudeste brasileiros. Da Bahia pra cima, todo mundo é “Paraíba”, uma espécie de sub-raça brasileira.

Justamente por conta da repercussão negativa da declaração preconceituosa, Edmundo resolveu, pela primeira e única vez na vida, calar a boca e falar em campo. Sozinho, ganharia o título brasileiro daquele ano para o Vasco, tornando-se o maior artilheiro da competição. Mas isso é outra história.

O que interessa é que, ao registrar no verbete “Paraíba” o sentido pejorativo utilizado por boa parte da elite sulista ignorante e separatista, o Houaiss – ou qualquer outro dicionário – não está incentivando o leitor a reproduzir a demência. Está apenas informando que, dentre os possíveis significados daquele vocábulo, está o de identificar o povo nordestino como uma gente pobre, indolente e despreparada.

Quem quiser ir em frente e reproduzir tal asneira, fale e arque com as conseqüências de seus atos. O leitor inteligente saberá muito bem em quais ocasiões poderá utilizar o vocábulo sem ser associado a um néscio.

O que não pode haver é a subtração do conhecimento. Fazer com que os dicionários simplesmente ignorem o sentido que o povo dá às palavras. Querer privar o leitor de cultura não é outra coisa senão epistemofobia (aversão e medo mórbido irracional, desproporcional, persistente e repugnante ao conhecimento).

E esse é o último significado que o povo quer ver associado à expressão MPF.

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2 respostas para A promoção da ignorância, ou A praga do politicamente correto – Parte II

  1. Kellyne disse:

    A volta ao blog após o carnaval parece ter sido muito inspirada, não? Todos os textos publicados desde a quarta-feira de cinzas estão excelentes, meu amigo, dá gosto de ler seu blog! Bjos

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