A origem da famíla, da propriedade privada e do Estado

Leitura obrigatória, mesmo para quem – como eu – é de direita, é a obra-prima de Friedrich Engels: A origem da família, da propriedade privada e do Estado.

As más línguas costumam contestar a autenticidade da obra. Atribuem-na ao companheiro (literalmente) de Engels, Marx, que teria escrito a obra e entregado-lhe os direitos autorais como forma de retribuir o carinho e, principalmente, o dinheiro que Engels empregava para seu sustento. O boato, entretanto, jamais foi confirmado, e a obra continua sendo creditada a Engels.

Com base num estudo aprofundado, que remonta às raízes da civilização, Engels disseca por engenharia reversa todo o sistema que hoje nós chamamos de sociedade. Coisas que de tão assimiladas à vida cotidiana tornam extraordinários (no sentido de fora do que é comum) qualquer comportamento que se desassemelhe delas. Sua tese é simples: toda a estrutura que hoje existe ao nosso redor deriva da apropriação indevida dos bens materiais por parte do homem.

Começando pela família, Engels explica como de uma família formada por associações endogênicas, isto é, as formadas por “casamentos” entre parentes (a palavra não pode ser usada como tal senão após o surgimento da civilização, segundo Engels). Como não havia apropriação de bens, pois tudo que era produzido e colhido era utilizado integralmente no sustento da família, não havia preocupação alguma com a acumulação de capital. Por isso mesmo, segundo ele, o predomínio era da mulher, e não do homem, pois ela era a responsável por organizar a família, preparar os alimentos e criar os filhos, enquanto os homens caçavam e mantinham a lavoura.

O problema começa a aparecer quando o homem desenvolve ferramentas e técnicas de agricultura. Com isso, passa a haver excesso de produção. E o excesso de produção, é claro, começa a ser trocado por outras mercadorias. Insinua-se, já nessa época, princípios de uma economia capitalista.

Quando o homem, responsável pelo excesso de produção, consegue transformar esse excesso em riqueza e passa a acumular bens, torna-se necessário garantir que seu patrimônio seja repassado somente àqueles que derivem diretamente de sua linhagem. É dizer: passa a ser necessário certificar-se da origem da descendência, de modo a garantir que seus filhos – e somente estes – pudessem levar adiante a riqueza acumulada durante a vida. Nesse ponto surgem o casamento e a herança.

Como maternidade é fato e paternidade é boato, Engels explica que a vinculação direta da mulher a um único macho reprodutor visava sobretudo a eliminar a dúvida quanto à certeza da descendência paterna. Claro, a vinculação era unilateral; somente a mulher se obrigava a manter a fidelidade conjugal. Ao homem era admitido continuar num esquema poligâmico, desde que consentisse que somente seus filhos oriundos do casamento herdassem seus bens. Algo que, até bem pouco tempo atrás, era ainda verdade. Por isso mesmo, Engels afirma que o casamento é a primeira e mais primitiva forma de exploração de um homem pelo outro.

Com a estruturação de famílias “isoladas”, era necessário estabelecer uma forma de convivência amigável, de modo a garantir a seguraná de todas elas, providência dispensável na época em que todas pertenciam a uma “única” família, ou gens. Por meio de uma intrincada rede em que o poder de representação e o poder militar repartiam-se entre algumas famílias, surge o Estado como superestrutura para arbitrar os conflitos entre as “ilhas” familiares.

Que é demasiada materialista, não há dúvida. A apropriação do “capital” para dirigir toda a atividade humana, algo difícil de aceitar-se. Mas Engels constrói uma teoria difícil de desmontar, principalmente quando se considera a realidade à nossa volta, em que o mundo e o o que está nele desenvolve-se para e em função do dinheiro.

Há muito mais no livro do que poderia ser resumido nesta breve sinopse. Em razão disso, se você quiser entender um pouco mais sobre a estruturação da sociedade, recomendo vivamente a leitura. São 200 páginas de sábio rigor científico, capazes de incomodar mesmo os espíritos mais absortos na realidade.

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