Ontem, a polícia, juntamente com Exército, Marinha, Aeronáutica e – é claro – a imprensa, expulsaram os traficantes da Favela da Rocinha. Com direito até a hasteamento da bandeira no alto do morro, a retomada da Rocinha foi celebrada em todos os jornais como a vitória do Estado brasileiro sobre o Estado dos traficantes (apesar de muitos ainda insistirem em não o reconhecer).
Ótimo, beleza, tudo muito bom, tudo muito bem. Mas, ao contrário do precipitado ufanismo dos repórteres de oba-oba, o buraco é bem mais embaixo.
Sob o título “Quem pacifica o cinismo?“, o blogueiro Josias de Souza, da Folha de São Paulo, bem explica por que ainda estamos distantes de conseguir uma vitória real no combate ao tráfico de drogas.
De início, porque só mesmo um cínico pode acreditar que os morros fabricam tipos como Nem da Rocinha por geração espontânea. Fabricam-se traficantes porque há quem cheire. Ou, por outra, não existirá oferta se não houver demanda. Enquanto a galera morro abaixo do circuito Ipanema-Leblon-Copacabana continuar cheirando todo pó branco que aparecer pela frente, sempre vai aparecer alguém morro acima disposto a provê-lo.
Fora isso, prender Nem e invadir o morro não resolverá a questão da corrupção na polícia. Como o próprio Nem fez questão de ressaltar após a prisão, metade do lucro obtido era desviado para os bolsos amigos de policias corruptos, alguns dos quais responsáveis pela segurança pessoal do próprio Nem. Depois da banda boa sumir com sua galinha dos ovos de ouro, a banda podre da polícia aguarda ansiosamente um dos ovos chocar e voltar a fazer correr o rio de dinheiro sujo que alimenta a rede de corrupção policial.
É preciso atuar com rigor no combate à corrupção policial. Nesse aspecto, a prisão de Nem pode ajudar muito, se estiverem realmente dispostos a desbaratar a teia protetiva que o manteve ao largo da cana por mais de dez anos. Sem isso, pouco adiantará: surgirá outro Nem que, provendo grana aos corruptos, conseguirá se manter a salvo da polícia.
Claro, ninguém aqui vai dizer que o Estado agiu mal ao tomar a Rocinha. Longe disso. O problema é circunscrever a resolução de todo o problema a só isso. Tirar o território do traficante dificulta a atividade, mas é apenas uma questão de tempo até encontrar outro sítio. Não se resolve o problema; ele apenas muda de lugar.
Uma verdadeira cruzada contra as drogas deveria começar, primeiro, por combater o uso. Psicólogos, campanhas educativas com jovens e pais, sei lá. Qualquer coisa que mostrasse que, ao comprar um baseado, o sujeito está ajudando diretamente a financiar a violência. Com o tempo, é possível que o consumo caia. Caindo o consumo, cairia o tráfico.
A questão, no fundo, resume-se a um raciocínio econômico: enquanto houver demanda, haverá oferta. E enquanto houver dinheiro correndo no tráfico, haverá policiais dispostos a se corromperem. Tipos como Nem surgirão e irão embora. E o problema continuará lá. Ficaremos, como sempre, apenas enxugando gelo.