Rebeldes sem causa

Devo dizer, antes do mais, que eu pensava em escrever esse post só depois de tentar compreender por inteiro o imbróglio dos estudantes da USP que invadiram a reitoria da Universidade. É dizer: tentar ver todos os pontos de vista para não emitir uma opinião precipitada. Mas, depois de uma semana à míngua, esperando em vão por algum contraponto decente, cheguei à conclusão óbvia: nada poderia ser mais insensato.

Como a maioria já deve ter visto, os estudantes de filosofia da Universidade de São Paulo invadiram a reitoria da Universidade de São Paulo. Fizeram isso em protesto pela autuação, pela PM, de três estudantes fumando cannabis no estacionamento da faculdade.

A PM não estava ali a passeio, mas sim porque foi convidada. Na verdade, conveniada.Há uns dois meses, um estudante fora assassinado dentro de seu carro, no estacionamento da universidade, por dois assaltantes. À falta de verbas e disposição para prover segurança ao alunato,  a direção da USP achou melhor fazer um convênio com a PM para fazer a ronda na área.

Tudo ia bem, até o dia em que a PM autuou os maconheiros.

Maconheiros sim, senhor. Não se tratava de um ato a favor da descriminalização da maconha, algo já referendado até mesmo pelo Supremo Tribunal Federal. Tratava-se de um ato furtivo de violação à lei, só isso.

Diante de um fato natural, quase banal (o registro do TCO), a turma da filosofia resolveu jogar a lógica pro ar. Para defender os autuados, resolveram invadir a reitoria e acampar lá até que a direção da USP resolvesse acabar com o convênio e, assim, garantir a impunidade do fuminho amigo na área do campus.

A reitoria não acatou a reivindicação, embora tenha piscado quando afirmou que poderia “rever os termos” do convênio. Como os estudantes não saíam, a direção da USP recorreu ao Judiciário. Conseguiu uma liminar determinando a reintegração de posse da reitoria.

Daí em diante, o que poderia ser apenas petulância de um bando de estudantes sem causa tornou-se um atentado ao Estado de Direito. Não bastasse a invasão de um espaço público e a depredação do patrimônio alheio, agora os estudantes de filosofia queriam vergar o Poder Judiciário, negando-se a obedecer à ordem de reintegração enquanto suas “reivindicações” não fossem atendidas. Ao contrário do que reclamaram depois da prisão, o autoritarismo não estava na PM, mas neles mesmos. Na ditadura, polícia não precisa de mandado pra expulsar estudante de reitoria ocupada. Entra baixando o sarrafo, sem perguntar em quem. Na democracia, estudande que desobedece ordem judicial responde a processo. Com alguma sorte, ganhará no máximo uma “pena” de prestação de serviços à comunidade. Esse é o jogo jogado.

O que não pode fazer nexo é, depois de tudo isso, os insurretos convocarem uma “greve” em favor da impunidade dos insurretos. Se os estudantes da USP acham que um movimento estudantil pode paralisar um processo judicial, devem estar mesmo muito bem baseados.

Falta aos estudantes de filosofia da USP, além de senso, um pouco de conhecimento da música. Com alguma sorte, teriam passado pelo pop rock nacional dos anos 80. Lá, encontrariam o Ultraje a Rigor. Ouvindo uma de suas canções mais famosas, talvez caíssem em si.

Mas sempre é tempo.

Esta entrada foi publicada em Política nacional. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.