Há mais ou menos um mês, saiu o resultado do Enem 2011. Em geral, a situação da educação do país foi bem ruim. A educação no Brasil, que já não é lá essas coisas, está caindo a olhos vistos. E mesmo as escolas particulares, antes tidas como redutos de excelência no ensino, apresentaram um desempenho sofrível.
Um coisa há de ser dita de antemão, antes de analisar os resultados: o ranking do Enem é falho porque não garante, em si, que a escola mais bem colocada tem uma boa educação. Quer dizer: o fato de uma escola estar na frente de outra não significa necessariamente que a escola em primeiro lugar é boa; ela pode ser apenas “menos ruim” que a concorrente.
No Ceará, o resultado em geral foi um desastre. No fundo, era algo já esperado. Trata-se do “coroamento” de uma política educacional completamente equivocada, que resultou na tragédia de uma geração inteira abandonada à própria sorte. Seguinte:
Há muito tempo, as escolas particulares, na ânsia de captarem alunos à custa da perda dos da concorrência, promoveram as “olimpíadas” e os testes seletivos para o ITA, IME e sei-lá-mais-o-quê a uma categoria de Olimpo. Escola boa era aquela que aprovava mais alunos nos institutos de excelência ou, então, aquela que trazia mais e mais valiosas medalhas nas olimpíadas de matemática, física, biologia, química e jogo-de-botão.
Com esse propósito, segmentavam o alunato em duas classes: os melhores alunos eram selecionados para “turmas especiais” ou para intensivos no período da tarde, dedicados única e exclusivamente à área desejada. Como ratos de laboratórios, os alunos dedicavam-se somente a um ramo do saber, e esqueciam completamente o resto. Pra piorar, fazim isso também com os melhores professores. Ao invés de distribuir seus conhecimentos a turmas inteiras e, com isso, melhorar a média geral de ensino do grupo, ficavam confinados aos laboratórios e aos poucos alunos escolhidos para freqüentá-los.
Claro, a maioria era suficientemente inteligente para compensar isso estudando em casa. Mas – lembre-se – estes eram os melhores alunos. Os alunos medianos e os medíocres, aqueles que mais necessitavam de atenção, eram solenemente esquecidos pela escola. Privilegiava-se somente a propaganda e as páginas de jornal com fotos de aluno. O aluno médio, este pobre coitado, ficava ao relento. Tinha que aprender na marra ou do jeito que desse, porque, se dependesse da escola, estava danado.
Depois de uns 15, 20 anos, esse “modelo” de educação mostra agora sua face mais perversa. Voltada unicamente para a propaganda das páginas de jornal, a “educação” ministrada pelas escolas particulares condenou toda uma geração ao subconhecimento, à mediocridade e, quiçá, ao subemprego.
Podia-se pensar que, com isso, o pessoal das escolas particulares aprendesse. Qual o quê. Nos dias seguintes, o que se viu foi um festival de páginas de jornal tentando descaradamente mascarar o resultado, sempre confinando as análises ao pequeno grupo das escolas do Ceará, ao invés de utilizar-se a perpespectiva nacional. Se tivessem a curiosidade de consultar o ranking do Enem, os “çábios” educadores do Ceará descobririam que a “melhor” escola do Ceará ficaria apenas em 7º no Piauí, estado zoado por 11 em cada 10 cearenses.
Só há uma forma de mudar esse triste quadro: os pais começarem a pressionar pelo fim das turmas especiais e deixarem de dar tanta importância às medalhas de olimpíadas e aos testes de seleção do ITA na hora de escolherem a escola de seus filhos. Quando isso acontecer, a velha e boa lógica do capitalismo se encarregará de fazer com que os “çábios” educadores do Ceará entendam que, mais importante que um 1º lugar no IME, são 100 alunos bem classificados no Enem.