Faz tempo que não posto aqui dicas de viagem para os mochileiros de plantão. Então, pra retomar em alto estilo, Anem a Barcelona.
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Barcelona é insinuante, mas é um tanto difícil. Conquistá-la é quase como tentar seduzir uma mulher. Ela não se mostra assim tão fácil ao visitante. Faz beicinho, charminho, e é necessário um certo tato e um desejo de desbravar o desconhecido para que ela se mostre em todo seu esplendor.
Ao contrário de Madrid, que basicamente gosta de viver de glórias passadas, Barcelona é uma visão do futuro; um salto pra frente. Se a noite de Madrid é modorrenta e tem um certo ar noir, meio decadente, Barcelona é o seu exato oposto: fervilha, está em constante ebulição, e tudo remete a um constante desejo de renovação. Por isso, viver em Barcelona não é viver em qualquer cidade: é ter um projeto de vida.
Barcelona não é só a sede do time de futebol que encanta o mundo. É a capital da Catalunha, uma das mais ricas províncias do Estado espanhol. Pelo seu jeito de ser, por sua língua própria (catalão) e pela perseguição que sofreu desde sempre, especialmente nos anos de Franco, a Catalunha nunca se conformou com o fato de ser parte da Espanha. Não há, como no País Basco, um grupo terrorista (ETA) a assombrar a Coroa Espanhola, nem tampouco o separatismo um tanto caricato dos galegos. A Catalunha fica numa espécie de meio-termo entre ambos. É onde você sentirá mais fortemente o desejo separatista de um povo espanhol, mas sem o inconveniente de bombas explodindo ao seu redor.
Isso serve de introdução para a primeira dica da cidade: quando as pessoas falarem em inglês com você, e você pedir que eles falem na língua própria, nunca, jamais, de jeito nenhum, peça pra eles falarem “em espanhol”. Peça gentilmente para lhe dirigirem a palavra em “castelhano”, que é o espanhol standard. Pra eles, é uma ofensa grave – quando menos uma demonstração suprema de ignorância – chamar “castelhano” de “espanhol”.
Por causa disso, andar em Barcelona guiando-se apenas pelas placas torna-se um bocadinho difícil. Quase todas as placas estão em catalão, a estranha língua, misto de francês e espanhol, que se fala por lá. As placas turísticas normalmente só tem a tradução para o inglês (acredite: a maioria não tem tradução para o castelhano). Apesar dos pesares, em caso de necessidade, todo mundo fala o castelhano fluentemente (ao contrário do país basco, onde só se fala euskera, uma língua que ninguém entende e nem sabe de onde veio). Por isso, não precisa ficar muito preocupado se conseguir somente “ler as figura“.
Os Jogos Olímpicos de 1992 foram para Barcelona uma redenção. Depois de anos e anos comendo o pão que Franco amassara, a cidade aproveitou a oportunidade para se reinventar e tornar-se uma das mais belas cidades européias. Com o dinheiro usado nas construções, remodelou o projeto urbanístico da cidade, construiu bairros novos e erigiu edificações que, posteriormente, ficaram de legado para o povo da cidade. Não à toa, toda vez que políticos de um país querem “vender” um projeto olímpico para suas cidades, recorrem à capital catalão como exemplo.
O blá-blá-blá tá bom, mas, finalmente, vamos ao que interessa. Roteiro básico de Barcelona, em quatro dias:
Primeiro dia: após desfazer as malas, siga direto e reto para Montjuic, a belíssima montanha que abriga a maior parte dos equipamentos que fizeram parte do Parque Olímpico. Pra não se cansar na subida, pegue um teleférico até o Castelo de Montjuic, que fica no alto. Lá, aproveite o sítio histórico e a inigualável vista da cidade. De lá, se for do seu gosto, você pode descer para ver o Museu Miró, com uma vasta coleção do pintor espanhol. À tarde, você pode descer para o Museu Nacional da Catalunha, onde você pode se deliciar com obras de Goya, El Greco e Zúrbaran, além de outros artefatos. À noite, siga para a Praça da Catalunha, o centro nervoso da cidade, com várias opções de comida por perto. Se você gostar de agito noturno, procure saber qual é a boate que bomba no dia.
Segundo dia: passeio tiro-e-queda, especialmente se estiver com crianças. Vá ao Oceanário de Barcelona, que fica na parte nova da Cidade, próximo às marinas. Salvo engano, é o maior oceanário da Europa, e vale a pena a visita. De lá, siga a pé até o Passeig de Colón, uma bela avenida à beira-mar. Após o almoço, suba por Las Ramblas, uma avenida na qual se encontram quiosques, lojas, restaurantes, cafeterias, enfim, o que há de melhor no comércio local. Se estiver disposto, siga por ela até a Praça da Catalunha, o centro nervoso da cidade. Pra quem gostar de compras, há uma enorme loja do El Corte Inglés. De lá, pegue um ônibus ou um metro até o Camp Nou, o belíssimo estádio do Barcelona F.C. Nele, você pode dar uma volta pelo estádio e conhecer o museu do Barcelona, com um histórico de todas as suas conquistas. Com alguma sorte, você encontrará por perto também um bom restaurante para jantar.
Terceiro dia: dia de arquitetura, ou melhor, dia de Gaudí, o principal chamariz da cidade. Primeiro, siga para o Parc Güell, um magnífico parque recheado de obras de Gaudí. Depois do almoço, uma das visitas obrigatórias da cidade: a Catedral da Sagrada Família. Obra de Gaudí, a Catedral inacabada é um verdadeiro monumento a céu aberto. Embasbaque-se com as fachadas decoradas e o interior majestoso da Catedral. Se estiver disposto, suba uma das torres para ter uma vista da cidade lá de cima. Se estiver cansado, pode pegar um elevador, mesmo (pago). De lá, siga para La Pedrera, a residência de Gaudí, construída ao melhor estilo Gaudí. Ao cair da noite, siga para La Boquería, um mercado onde é possível degustar tapas, jamóns e quesos os mais saborosos por um precinho bem camarada.
Quarto dia: Se você mora em alguma capital litorânea, não faz muito sentido, mas, se não, vá à praia de Barcelona. Tão parecida com as nossas que nem parece que você está na Europa. Se não quiser ir à praia, vá até o Parc de la Ciutadella, um parque construído próximo à Vila Olimpíca, especialmente para os Jogos de 92. Outra opção interessante é pegar uma excursão de ônibus e subir a montanha em direção ao Mosteiro de Montserrat, uma magnífica construção realizada na rocha, da qual se vê Barcelona do alto por inteiro. Fica a seu critério.
É isso. Quatro dias apenas não são suficientes para descobrir Barcelona por inteira. Mas é o suficiente para se apaixonar por essa linda e distinta jovem, e ficar com vontade de sempre voltar para cortejá-la.