Se a despedida de Ronaldo não serviu lá pra muita coisa, pelo menos me deu um mote pra voltar a falar de esporte por aqui.
Ronaldo foi um grande craque, indiscutivelmente. Maior do que a maioria da torcida admite (inclusive este que vos escreve), embora muito, muito menor do que o ufanismo exagerado de Galvão Bueno quis fazer crer.
Desde o começo no Cruzeiro até a ascenção no PSV Eidhoven, Ronaldo já mostrara a que veio. Não à toa, foi convocado aos 17 para a reserva na Copa de 1994, mesmo não tendo jogado um minuto sequer. Mas, de todo modo, teve o mérito de “forçar” sua convocação com seu talento, fazendo isso contra a vontade de um técnico reconhecidamente retranqueiro (Parreira).
Foi no Barcelona, no entanto, que Ronaldo brilhou mais intensamente. No auge da forma, pintou e bordou em terras catalãs. Acho que foi Armando Nogueira quem disse, na época, que Ronaldo combinava a agilidade e a classe de um bailarino com a força de um boxeador. Talvez essa fosse sua melhor definição. Ronaldo era ágil, inteligente, sabia se posicionar muito bem, mas sempre – sempre mesmo -dependeu muito de sua forma física para jogar no ápice do talento. Quando esta começou a falhar, sua decadência foi inevitável.
Após ser eleito melhor do mundo umas duas vezes pelo Barcelona, Ronaldo foi para a Internazionale de Milão. Ainda tinha habilidade suficiente, mas as duas contusões gravíssimas de seu joelho prenunciavam um fim prematuro de sua carreira.
E foi aí que a estrela de Ronaldo Brilhou. Ao contrário do que todo mundo achava (inclusive este que vos escreve), Ronaldo reuniu forças pra dar a volta por cima. Com a confiança de Luís Felipe Scolari e tendo ao lado um Rivaldo no melhor ponto de sua carreira, levou, aos trancos e barrancos, a seleção brasileira ao pentacampeonato em 2002.
Provavelmente reside aí o segredo do “Mito Ronaldo”. Nenhum outro jogador passou diante das telas por uma saga assim tão épica. Nenhum outro jogador produziu para si mesmo uma história que caberia melhor num roteiro de Hollywood.
Não, ele não foi o maior jogador brasileiro desde Pelé, como apressadamente concluiu Juca Kfouri. Zico jogou muito mais e era muito mais completo. Como atacante, perderia fácil para Romário, o maior gênio da grande áea, maior até do que Pelé nessa parte do campo. Tampouco Ronaldo era o protótipo do showman em campo, como foi Maradona. Mesmo assim, a trajetória cinematográfica de ascenção-queda-ascenção lhe garantiu um lugar na história do esporte.
Mesmo com o excesso de peso e a decadência dos últimos anos, Ronaldo merece todas as homenagens, não só pela bola redonda que jogou, mas, principalmente, pelo exemplo de superação que deixou. Pena que a CBF e a Globo sejam incompetentes o suficiente para não produzir uma festa de despedida à altura do homenageado.
Do blog, fica a lembrança e um vídeo com alguns dos gols do Fenômeno, pra quem quiser curtir: