A pequena era do gelo

Alguém disse certa vez que existem mentiras, mentiras e malditas estatísticas. Um professor de física que tive costumava dizer que estatística é a ciência segundo a qual eu como dois frangos, você não come nenhum, e nós dois ficamos satisfeitos. Com ressalvas, dou-lhe inteira razão.

Vez por outra, surge alguma nova revelação de que a temperatura medida na superfície gelada de um ponto qualquer no meio dos Alpes ou em algum dos pólos é a “maior” dos últimos 150 anos.

Que o mundo está aquecendo e que isso, provavelmente, é resultado da ação humana, não resta dúvida. Mas, por questão de honestidade intelectual, conviria explicar alguns poréns ao distinto público.

A primeira delas é que o mundo só começou a se preocupar com estatísticas e medições climáticas por volta de meados do século XIX. As medições cientificamente mais idosas datam de 1800 pra cá, e são elas que ditam as “bases” das comparações com as medições atuais. Apesar de os instrumentos da época não serem tão precisos quanto os atuais, todo mundo está mais ou menos de acordo quanto ao rigor científico das medições. Em outras palavras, as medidas podem não ser as mais precisas, mas são bastante confiáveis em termos metodológicos.

“E daí? Qual o problema?”

O problema é que, justamente nessa época, estávamos vivendo o ocaso da chamada “Pequena era do gelo”. “É coisa de filme da Disney?”. Não, não é.

Todo mundo sabe que o planeta passou por diversas fases em termos climatológicos. Houve períodos de maior temperatura, houve períodos de maior arrefecimento (as “eras do gelo”). Pode parecer estranho, mas o planeta já teve períodos muito mais quentes do que os atuais, em que praticamente não havia gelonos pólos. Por outro lado, quando a coisa esfriava, era pra valer: o gelo tomava conta de quase tudo, e verão quentinho, mesmo, só bem próximo ao Equador.

Desde o fim de última era do gelo, há aproximadamente 10 mil anos, estamos numa época “intermediária”: nem muito fria, nem muito quente, com gelo basicamente tomando conta apenas das zonas polares.

No entanto, nesse meio tempo, houve uma “pequena era do gelo”. Ninguém sabe ao certo quando exatamente começou nem quando exatamente terminou, mas todos estão de acordo que, por volta do século XVI até meados do século XIX, o mundo passou por um período de esfriamento semelhante a uma “era do gelo”, embora menos rigorosa.

Nesse período, o Tâmisa congelava e os rios de Nova Iorque ficavam de tal modo congelados que era possível ir de Manhattan a Staten Island andando. Até mesmo os belos canais de Amsterdã congelavam. No limite, a Islândia – não à toa conhecida como Iceland – ficava sem acesso a mar aberto (Wikipedia).

Desde então – e, de novo, ninguém sabe exatamente por quê – o mundo voltou a esquentar. Por isso, é de certa forma falsa a comparação entre as medições de temperatura atuais com as realizadas no meio do Oitocentos. As eras climáticas da Terra são diferentes nas duas épocas.

Isso, todavia, não exclui a culpa nem livra a cara do ser humano na responsabilidade pelos desastres climáticos atuais. No meu modesto entendimento – e aqui faço uma suposição no escuro, sem qualquer base científica – acho que o mundo já caminhava para uma fase “quente”. Considerando que o último período climático foi uma era glacial, nada mais natural do que esperar que a próxima fase fosse tórrida. Entretanto, acho que a mão humana tem contribuído decisivamente para acelerar a transição de geladeira para forno. Coisas que se passariam em alguns séculos estão agora se passando em décadas. Coisas que se passavam em décadas, agora se passam em anos.

O mundo vai continuar aquecendo até o derretimento total dos pólos? Não sei. Vamos sobreviver a isso? Não sei. O fato é que, hoje, não estamos preparados para isso. E se não fizermos nada para, pelos menos, retardar esse processo, arriscamo-nos a não estar aqui pra ver um mundo sem gelo.

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