A sociedade civil e o golpe de 64

Há tempos o Moura Grande me cobrava esse post. Hoje, com um pouco mais de tempo, ei-lo:

O golpe militar de 1964 é um dos temas mais controversos da história e da política nacionais. É difícil falar sobre ele porque, de um lado e de outro, as opiniões são extremadas: ou defende-se cegamente ou ataca-se sem piedade. Não há lugar para meio-termos.

É fato que, atualmente, descer o pau nos militares e no regime instaurado após o golpe de 64 virou algo rotineiro. É quase senso-comum dizer que o regime foi uma desgraça, do ponto de vista social e econômico, e que tudo que foi herdado daquela época não passa de “entulho autoritário”. Mas pouca gente se questiona sobre o papel da sociedade civil no golpe e no pós-golpe. Será que os militares agiram sozinhos? Será que não havia apoio popular? Ou, mas precisamente, será que a sociedade civil não ajudou os golpistas na “revolução” e depois continuou apoiando o regime por eles instaurado?

Antes de responder a essas perguntas, é necessário dirimir uma dúvida: 1964 foi um golpe ou foi um contragolpe?

Para a maior parte dos historiadores de esquerda, o que houve em 1964 foi um golpe. Isto é: uma rebelião militar, com forte influência americana, destinada a derrubar um governo democrático.

Do outro lado, há quem defenda a tese de que o golpe vinha à esquerda. Aliás, vinha do próprio governo. Jango queria o golpe, para expurgar do Congresso a parte indesejável da oposição e poder governar com bem entendesse. Daí o apoio que deu à rebelião dos marinheiros (baixa oficialidade) e as medidas de caráter populista destinadas a agradar os setores mais pobres da malta.

Não vou entrar aqui no mérito de um ou outro. Minha questão aqui é outra. Dos dois lados, havia apoio popular. De um lado, as classes mais baixas, o sindicalismo pelego e setores do governo ansiosos por uma ditadura que lhes servisse; do outro, as classes média e alta, a maioria esmagadora do empresariado e parte dos militares alinhados aos EUA.

Lendo-se os livros de história, não há dúvida de que o segundo lado era mais numeroso e mais influente do que o primeiro. Apesar dos golpistas à esquerda contarem com o apoio do governo de Jango, sua própria movimentação errática e difusa contribuiu para o fracasso de sua estratégia. Jango queria se valer da desordem militar e da quebra de hierarquia promovida pela rebelião dos marinheiros para, com isso, obter apoio militar. Apoio, se obtivesse, seria desordenado, sem chances de se contrapor a um força militar mais bem estruturada do outro lado.

Além disso, é necessário ressaltar que a sociedade brasileira, desde sempre, é majoritariamente conservadora. Pergunte a seus pais ou a seus avós: qual era o pai ou a mãe de família de classe média que queria ver seu filho “metido em causas comunistas”? Antes de ser um pretexto militar, o “perigo vermelho” era um receio da maior parte da classe média brasileira. Ninguém queria uma “cubanização” do Brasil. Daí para apoiar militares que se dispunham a lutar contra a “Bandeira Vermelha”, foi só um pulo.

O empresariado, claro, apoiou o golpe por razões de sobrevivência. Ninguém queria tabelamento de preços, restrições à atividade econômica e política salarial regular que certamente viriam numa ditadura “à la Fidel”. Por essas e outras, mesmo durante a ditadura, apoiaram o regime.

O que pouca gente entende é que, logo após o golpe e durante o Governo Castello Branco, o Brasil não vivia uma “ditadura” no seu termo mais duro. Boa parte do pessoal que viveu essa época, e até mesmo os mais perseguidos, como Paulo Francis, repetiam que no governo Catello Branco havia uma certa liberdade. Até determinado ponto, é verdade, mas ainda assim suficiente para tirar o ranço do regime.

Ditadura mesmo, e aí ninguém discorda, veio em 1968, com o AI-5. Daí pra frente, o que viu foi uma noite que duraria 10 anos, até que Geisel o revogasse, em 1978.

O que pude concluir falando com quem viveu aquele período é mais ou menos o seguinte: todo mundo queria o golpe. Todo mundo apoiou os militares. O apoio só começou a ruir quando eles não quiseram mais sair do poder. Sem apoio, tiveram que radicalizar. Daí o AI-5 e o que se seguiu a ele. Se Castello Branco tivesse enquadrado o pessoal da linha-dura que se opunha ao seu governo, era possível que os militares ainda hoje fossem vistos como “tábua de salvação nacional” para a política brasileira. Para o bem e para o mal, graças à sua incompetência e ganância, a opção militar é hoje carta fora do baralho.

Melhor assim.

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1 Response to A sociedade civil e o golpe de 64

  1. Avatar de Rômulo César Mourão Rodrigues Rômulo César Mourão Rodrigues disse:

    O Moura grande concorda plenamente. Uma análise que o próprio Castelo Branco( Opa!, Não se assuste, falo do Castelinho, o melhor analista de política de todos os tempos, sempre independente, quaisquer que fossem as circunstâncias) ratificaria.

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