Os riscos de uma geração “alzheimeriana”

Ontem assisti ao Marília Gabriela Entrevista com o dublê de ator-apresentador-filósofo-poeta Pedro Bial. Os assuntos foram vários, desde a biografia (elegia) que escreveu sobre Roberto Marinho até os efeitos colaterais dos remédios que tomou para controlar a depressão que o acometera.

Num desses vai-e-vens típicos desse tipo de entrevista, em um certo momento Pedro Bial criticou a juventude atual. Para ele, forma-se uma geração “alzheimeriana”. No seu entender, os jovens de hoje em dia não querem mais saber do passado, nem tampouco estão preocupados com o futuro. O que importa é o “aqui e agora”.

Apesar de não ser fã do cara, não tive como deixar de lhe dar razão.

É fato: pouca gente hoje se interessa por história. “Por que estudar coisas de gente que morreu centenas de anos antes de mim?”, perguntam alguns, enquanto outros simplesmente decretam: “Estudar história é chato”, um adjetivo antes restrito à matemática.

Há um bordão surrado, mas difícil de ser contraditado: não se pode entender o presente nem projetar o futuro sem entender o passado. Vivemos hoje um dos maiores paradoxos da modernidade, e grande parte da “culpa” disso é deste veículo: a Internet. Nunca antes na história da humanidade houve uma quantidade tão absurda de informações à disposição. Por outro lado, nunca houve tanto lixo produzido. Há mais conhecimento, mas é cada vez mais difícil separar o que é relevante do que é inútil.

Parece que o jovem de hoje em dia não compreende que a história é o melhor filtro para essa avalanche de informações que se precipita sobre ele todo dia. É olhando para a história que é possível entender o porquê dos fatos de hoje e, com alguma sorte, prever o que poderá ocorrer no futuro. Se isso não for feito, o ser humano torna-se absorto, um mero receptor de dados, como um computador, mas sem nenhuma capacidade de processá-los.

O imediatismo é um mal da juventude, é verdade. E é um mal atemporal. Todas as gerações padeceram dele. Deve-se aproveitar ao máximo o tempo presente. O planejamento – quando muito – tem um horizonte de eventos de semanas, no máximo meses, não mais. Faz sentido. Afinal, não há grandes responsabilidades na juventude. Ninguém depende de você. Você não tem que sustentar ninguém. É natural, portanto, que a maior parte das preocupações divide-sa entre relacionamentos que você tem, teve, ou quer ter, e as festas que você quer ir. Nada além disso.

Mas, mesmo assim, há algo de niilista na geração atual. Nas anteriores – e aqui falo somente pela minha -, havia uma certa inquietude com o mundo. Por mais que o horizonte de eventos fosse curto, havia preocupações “de fundo”. Não simplesmente as do tipo: “O que eu vou ser quando crescer?”, mas também: “Será que o Brasil ou o mundo serão sempre assim?”. Ou, ainda: “Quando eu crescer, será que poderei fazer algo pra mudar o mundo?”. Na geração atual, não. Há apenas a preocupação em aproveitar o hoje como se não houvesse amanhã.

Não sei até que ponto a responsabilidade pelo estado atual de coisas é nossa. No entanto, se quisermos ter um mundo no qual as aspirações sejam mais do que uma interrogação na cabeça e um vazio no coração, temos que agir. Agora.

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