Inspirado pela Ana O., vou deitar algumas palavras sobre a história de Watergate.
Watergate é o maior escândalo político da história norte-americana. Um sucessão de safadezas e trapalhadas levaria à primeira – a até agora única – renúncia de um presidente dos EUA ao cargo. A história é a seguinte:
Richard Nixon era um sujeito meio psicótico. Odiava os democratas porque atribuía a eles o “roubo” na eleição de 1960, quando perdeu para John Kennedy. Vivia atormentado com a idéia de que era seguido e grampeado. Como antídoto, mandava seguir e grampear quem lhe fazia oposição, e até mesmo aliados.
Na campanha de sua reeleição, em 1972, Nixon mandou grampear a sede do comitê democrata. O comitê ficava num edifício no centro de Washington chamado Watergate. Daí o nome do escândalo.
Pelo plano, cinco pessoas ligadas à comunidade de inteligência dos EUA deixariam os grampos pra prever os passos e saber o que tramavam George McGovern – candidato democrata – e seu staff. O problema foi que, quando foram retirar os grampos, os cincos grampeadores foram pegos com a boca na botija.
Inicialmente, o caso foi tratado como um furto. Depois, com o avançar das investigações, descobriram-se os grampos e a intrincada rede de conexões que – como ficaria provado mais tarde – chegaria até a Casa Branca.
Nixon tentou de todas as maneiras abafar o caso. Sabendo que a teia de conspiração bateria à sua porta, ofereceu dinheiro aos presos para que não falassem, sob o compromisso de que, uma vez julgados, lhes daria o perdão pelos seus crimes.
Foi graças à obstinação de dois jovens repórteres do Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, que o caso seguiu adiante. Eles, que nem sequer eram repórteres da área política, seguiram o instinto e foram atrás de uma história em que boa parte dos figurões da mídia não apostava um tostão furado.
É claro, nada disso teria sido possível se não contassem com a preciosa ajuda do Deep Throat (Garganta Profunda). Homenagem a um “clássico” pornô da época, o Garganta Profunda manteve Woodward e Bernstein no caminho certo. Sempre que a coisa degringolava, o Garganta apontava a direção a seguir.
Foi dele a principal dica para solucionar o caso: “Follow the money” (Siga o dinheiro). Deep Throat sabia que, rastreando-se o dinheiro pago aos invasores de Watergate, Woodward e Bernstein chegariam ao comitê de reeleição de Nixon. Daí para chegar aos cabeças, seria um pulo.
Mais tarde, descobriu-se que o Garganta Profunda era Mark Felt, nº. 2 do FBI (a Polícia Federal Americana). Ele tinha ficado, digamos, “chateado” com Nixon, porque achava que seria indicado para ser o nº.1 do Bureau. Inconformado, passou a vazar tudo que sabia pra imprensa.
É fato: sem a sucessão de trapalhadas de Nixon na condução do caso, dificilmente Watergate teria levado à sua renúncia. Graças à sua incompetência, hoje todo escândalo – seja ou não político – ganha o sufixo gate: Dossiêgate (caso do dossiê sobre o governo FHC), Piquetgate (a marmelada em uma corrida de F-1), Antennagate (o caso da antena defeituosa do Iphone4). É a história contribuindo para o desenvolvimento do idioma.
Pra quem tiver curiosidade e quiser saber mais sobre a história, o filme definitivo sobre Watergate é Todos os homens do presidente. Adaptação do livro de Woodward e Bernstein, Todos os homens do presidente reconstitui passo a passo como Watergate deixou de ser um edifício em Washington para ser um sufixo. Com atuações impecáveis de Robert Redford (Woodward), Dustin Hoffman (Bernstein) e Jason Robards (Ben Bradlee, editor do Post), o filme é manual de investigação de primeira. Deveria ser obra obrigatória para quem pretende ser policial, promotor ou jornalista.
Abaixo, o trailer do filme: