Too little, too late?

A novela da Líbia continua, e a cada dia o enredo vai ganhando mais emoção.

No último capítulo, a ONU finalmente resolveu descer do muro e decretou uma zona de exclusão aérea na Líbia. A resolução saiu a fórceps, depois que China e Rússia concordaram em não vetá-la e decidiram se abster na votação. Na prática, isso significa: “Querem atacar? Ok. Vão em frente. Mas não contem conosco”.

Em tese, uma zona de exclusão aérea deveria permitir apenas que se impedissem vôos não autorizados em um determinado espaço aéreo. Assim, se os caças de Kaddhafi levantassem vôo, poderiam ser abatidos pela coalizão internacional.

Não é isso que está acontecendo.

A “zona de exclusão aérea” resultou numa autorização de destruição total da capacidade militar aérea do governo líbio. Em bom português: todas as instalações militares – aeroportos, hangares, aviões e helicópteros – estão sendo destruídos, mesmo em solo.

Mas não só. Há notícias de que mesmo blindados (ou seja, forças terrestres) e edifícios do governo líbio foram alvo de ataques por parte das forças internacionais. Os franceses, americanos e ingleses alegaram que tais medidas tiveram por base a decisão contida na resolução, isto é, tomar todas as medidas necessárias para defender a população civil do massacre promovido pelo governo líbio.

Na verdade, a zona de exclusão aérea foi só uma saída encontrada para tentar equilibrar o jogo entre as forças dos rebeldes e as forças de Kaddhafi sem que houvesse uma incursão militar direta das potências ocidentais na Líbia (leia-se: envio de forças terrestres para combate no solo). O custo político de uma decisão dessa seria altíssimo, especialmente quando o povo americano já dá sinais claros de que não agüenta mais ver rodar o contador de mortos no Iraque e no Afeganistão. Com essa resolução, permitiu-se um jogo de basquete entre gigantes e anões: a superioridade aérea de França, EUA e Inglaterra não pode nem tem como ser batida por Kaddhafi e seus mercenários.

As potências ocidentais subestimaram Kaddhafi. Devo confessar que eu mesmo acreditei que ele não iria durar muito mais tempo. Tudo bem: ninguém duvidava que Kaddhafi, ao contrário de Mubarak, não teria o menor pudor em metralhar e chachinar uma passeata ou uma multidão de rebeldes. O que ninguém contava é que, mesmo com o congelamento de seus bens no estrangeiro, Kaddhafi ainda tivesse debaixo do colchão dinheiro suficiente pra comprar mercenários que lhe recompusessem o chão que começara a faltar quando parte do Exército líbio inclinou-se na direção dos rebeldes. Foi isso que permitiu a Kaddhafi se reorganizar e iniciar uma contra-ofensiva que, até a resolução da ONU, parecia destinada a esmagar a revolta popular contra seu governo.

A questão a saber agora é: será que não demoraram muito pra fazer alguma coisa? Isto é: será que o apoio de força aérea estrangeira, a essa altura do campeonato, será suficiente para fazer a balança voltar a pender em favor dos rebeldes?

O risco maior é não acontecer nem uma coisa (Kaddhafi sair) nem outra (os rebeldes perderem). No começo dos anos 90, a ONU resolveu enviar uma missão de paz pra Somália, que enfrentava uma guerra civil. As forças de paz saíram de lá dois anos depois, sem resolver o problema, com o conflito agravado e a matança multiplicada. Desde 1992, a Somália não tem governo constituído; virou terra de ninguém, área livre para os piratas que assombram o Chifre da África.

É isso que vai acontecer com a Líbia? Só o tempo dirá.

Esta entrada foi publicada em Política internacional. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.