In the name of Assange

Quem ainda não assistiu e não gosta de saber antecipadamente finais de filme, pode parar de ler por aqui. Se não, siga em frente.

O ano era 1974. Os irlandeses do norte, católicos, estavam cansados da dominação britânica e queriam se juntar ao sul, católicos como eles e uma nação independente: a República da Irlanda (ou Eire).

Alguns resolveram pegar em armas contra os ingleses. Daí surgiu o IRA (Irish Republican Army), ou o Exército Republicano Irlandês.

Naquele ano especialmente sangrento, resolveram botar uma bomba num bar freqüentado por jovens, na pequena e pacata cidade de Guilford. Mataram cinco pessoas e feriram mais umas tantas.

Pressionada, a polícia saiu à caça de quem quer que fosse pra apresentar como culpados e dar uma satisfação à sociedade. Por uma dessas infelicidades do destino, Gerry Colon e um amigo seu, dois irlandeses panacas mas inofensivos, estavam na cidade errada na hora errada. Foram presos e mantidos incomunicáveis por sete dias. Nesses sete dias, torturaram-no e ameaçaram-no a ele e a sua família de morte. Sob pressão, acabaram confessando um crime que não cometeram.

Depois de suas confissões, prenderam seus amigos e suas famílias. Em um processo evidentemente forjado, foram condenados à prisão perpétua, e seus familiares foram condenados a penas que variavam de 14 a 30 anos.

Gerry Colon foi levado à prisão juntamente com seu pai, Giuseppe Colon. Lá acabaram conhecendo os verdadeiros terroristas que puseram a bomba no bar de Guilford. Mesmo com a confissão deles, o Governo Britânico permanecia irredutível e não admitia um erro judicial.

Um dia, a sorte sorriu pra Gerry e Giuseppe Colon. Uma advogada obstinada e determinada, Gareth Peirce, acreditou na história deles e passou a cavucar. Cavucando, achou nos arquivos da polícia o depoimento de um mendigo que confirmava a história de Gerry e seu amigo de que estavam num parque na noite da explosão do bar. Junto ao documento, estava um bilhete do Inspetor Geral da Polícia. Dizia o seguinte: Not to be shown to the defense (Para não ser mostrado à defesa).

A cena final é uma das melhores da história do cinema:

Gerry Colon e seus amigos foram soltos, embora tivesse que viver pra sempre a amargura de ter visto seu pai morrer na prisão por um crime que ele não cometera.

E daí?

Daí que o judiciário britânico, que tentara a reabilitação quando encarcerou Pinochet por um ano, acaba de mostrar novamente its true colors.

Julian Assange é o sujeito responsável pelo site Wikileaks. Ele e seu site provocaram um verdadeiro terremoto nas relações internacionais ao começarem a vazar, a conta-gotas, 250.000 documentos sigilosos da diplomacia americana. A maioria são segredos de polichinelo, coisas que todo mundo já imaginava. Mas entre imaginar e ver num documento oficial a Secrétaria de Estado Hilária Clinton pedir que seu embaixador comprovasse a sanidade mental da presidente Cristina Kitchner, vai uma grande distância.

Os Estados Unidos, pátria da Primeira Emenda e da liberdade de imprensa, não ficaram nem um pouco satisfeitos. Sem ter o que fazer, foram atrás de alguém que os ajudasse. A Suécia topou fazer o serviço.

Desenterraram um processo em que Assange era acusado por duas jovens de ter feito sexo consensual – isso mesmo, CONSENSUAL – mas sem camisinha. Na Suécia – acredite se quiser – transar sem camisinha é uma modalidade de estupro. Isso mesmo. Você não leu errado: transou consensualmente, mas não usou camisinha, vai em cana pra ser mulherzinha na prisão.

Por estar em solo britânico, a Suécia pediu à Inglaterra que prendesse e extraditasse Assange para ser “julgado”. Era uma oportunidade única de a Inglaterra afastar-se dessa pantomina toda e garantir a um sujeito perseguido por razões políticas que ficasse livre das barras da prisão.

Nada feito. Ontem, um juiz autorizou sua extradição. Disse que não cabia a ele entrar no mérito do caso. Se a lei sueca é essa, problema de Assange. Ele que se resolva com os suecos. Fez ouvidos de mercador para as alegações da defesa de que o processo não passava de um subterfúgio americano para permitir que Assange, uma vez extraditado, fizesse escala na Suécia para depois ser reextraditado para os EUA, onde comerá o pão que eles amassaram.

Um dia, ainda farão um filme sobre isso. In the name of Assange poderá mostrar ao mundo como o outrora poderoso Império Britânico, onde o sol não se punha, capitulou diante de sua cria mais brilhante.

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