Pensamento do dia

As pessoas não ficam mais fáceis no carnaval. Elas apenas ficam mais objetivas.

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O sequestro do orçamento, ou A necessária discussão sobre as emendas parlamentares

Era a crônica do desastre anunciado.

Desde que Dilma Rousseff resolveu enfrentar Eduardo Cunha, passando pela desgraça em que Temer caiu após a delação de Joesley Batista, até chegar na “terceirização” do governo promovida por Jair Bolsonaro, temos assistido cada vez mais ao sequestro do orçamento da República pelos deputados e senadores eleitos para o Parlamento. Contrariando as regras mais básicas do sistema presidencialista, os parlamentares resolveram se assenhorar de uma parcela cada vez maior dos dinheiros arrecadados da população, relegando o Governo Federal praticamente à condição de pedinte para seus próprios programas. Trata-se de uma deformação completa do nosso sistema de tripartição de poderes.

Não que isso não fosse exatamente inesperado. Muito pelo contrário. Quem lê com atenção a Constituição de 1988 enxerga em seu texto coisas assaz curiosas. Embora o sistema de governo esteja definido com um representante eleito por voto majoritário para exercer a chefia de Estado e de Governo (o Presidente da República), quase nada se faz sem que o Congresso dê o seu pitaco no angu. Não só isso. Em muitos casos, o Congresso pode literalmente decidir sozinho.

Ainda que reste ao Presidente o direito de vetar certas proposições, o Congresso pode simplesmente derrubar o veto e fazer valer sua vontade na marra. No caso de emendas à Constituição, nem direito a veto existe. Os parlamentares aprovam a alteração no texto constitucional, promulgam a emenda e fim de papo. Quando muito, restará ao Governo tentar recorrer ao Supremo caso haja alguma inconstitucionalidade na iniciativa. Por mais que não se queira admitir, a prevalência política – no sentido de “poder para fazer as coisas” – no nosso sistema constitucional está estruturada em torno do Congresso, à semelhança do que ocorre no parlamentarismo.

Por muitos anos, o modo que os presidentes de turno encontraram para contornar essa arquitetura estranha foi justamente o uso das emendas parlamentares. Indicadas pelos parlamentares como prerrogativa sua, as emendas destinavam dinheiro a pequenas obras ou instituições nos seus redutos eleitorais. A intenção, por óbvio, era transformar dinheiro em votos. Até aí, nada de mais: politics is politics.

Pela dinâmica então estabelecida, os deputados e senadores enfiavam as emendas no orçamento. No ano seguinte, o Executivo – senhor dos recursos federais – decidia quais e quando as emendas seriam pagas. Foi através desse sistema que os sucessivos presidentes, de Itamar Franco a Dilma Rousseff, conseguiriam formar suas bases de apoio, naquilo que o sociólogo Sérgio Abranches viria a definir como “presidencialismo de coalizão”.

O problema, como você pode imaginar, é que esse “arranjo” somente funcionaria enquanto o Presidente da República se mantivesse politicamente forte. Na hora em que ele ficasse fraco, ou uma figura politicamente fraca ocupasse como inquilino o Planalto, era apenas questão de tempo para que o Congresso “descobrisse” que era ele que mandava no pedaço. Bastaria aumentar a quantidade de emendas no orçamento ou, pior, torná-las de execução obrigatória, para que o Executivo perdesse seu principal instrumento de barganha política.

E foi justamente isso que aconteceu a partir de 2015. Primeiro com Dilma Rousseff, depois com Temer, até chegar às raias do paroxismo com Bolsonaro, o “monstro” do Congresso devorador de emendas foi-se tornando cada vez maior e insaciável. A coisa atingiu tal nível de selvageria que o fato de o Presidente Lula ter vetado R$ 5,3 bilhões – de um total de mais de R$ 50 bi – nas emendas deste ano foi o suficiente para deflagrar a mais nova crise institucional em Brasília. Quem duvida pode conferir o discurso de Arthur Lira na abertura do ano legislativo, pronunciado na última segunda-feira.

É bem verdade que Lula já pegou o bonde andando, com a casa toda desarranjada pelo que (não) fizeram seus predecessores. Mesmo assim, o atual mandatário tem feito pouco ou quase nada para mudar esse estado de coisas. Parte dessa inação deriva do fato de que boa parte do PT abraçou-se gostosamente ao Centrão, funcionando como linha auxiliar do “Lirismo”. Não por acaso, o Presidente da Câmara mantém alguns dos principais próceres do partido da estrela vermelha como seus fiéis escudeiros.

Quem sabe movido pela esperança de que o tempo acabe por resolver essa questão de uma forma ou de outra, Lula talvez ache que pode ir empurrando a coisa com a barriga até a eleição da nova mesa diretora da Câmara no ano que vem, quando Lira forçosamente deixará o terceiro posto mais importante da República. A questão, portanto, é saber se a barriga do Planalto está suficientemente sarada para empurrar o Presidente da Câmara e o Centrão até 2025. A julgar pelo que se viu até agora, a resposta é não.

Mais hora, menos hora, Lula vai ter que encampar a discussão sobre a função e os limites das emendas parlamentares. A melhor forma de fazer isso é abrir o jogo e trazer a luz do Sol para dentro dessa discussão. Uma discussão honesta, mostrando para onde está sendo direcionada a verba das emendas e o que se está deixando de fazer para manter esse mimo do Parlamento, certamente faria acordar o “monstro da opinião pública”. Sem ter como defender o indefensável, nem Arthur Lira teria forças para barrar a pressão que viria de fora pra dentro do Congresso.

Se até o momento não se fez a luz sobre sobre essa discussão, parte disso deriva do fato de que Lula não quer confrontar a Câmara (e, dentro dela, o PT) com seus próprios demônios. É um erro, porém, apostar na inércia, achando que é melhor deixar tudo como está, para ver como é que fica. Em 2014, Dilma Rousseff foi avisada de que havia algo de errado na Petrobras. A “gerentona”, contudo, achava que Paulo Roberto Costa era apenas mais um diretor da estatal e que Sérgio Moro era apenas um juiz de Curitiba.

Deu no que deu.

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Trilha sonora do momento

Depois da derrota do Milei no Congresso argentino ontem, nada melhor do que recorrer à grande Beth Carvalho.

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Pensamento do dia

Nenhum homem parte antes da hora, a menos que seu chefe tenha saído mais cedo.

By Groucho Marx

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Trilha sonora do momento

Em homenagem ao retorno da Tracy Chapman aos palcos…

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Pensamento do dia

Às vezes eu me pergunto se aquelas coisas ruins que acontecem comigo são por causa daquele email para 10 pessoas que eu não repassei.

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Recordar é viver: “O pior negócio da história”

Para esta semana atribulada, com tanta coisa acontecendo aqui e alhures, vamos recordar um post do começo da década passada, quando se explicou aqui os termos em que se deu o pior negócio da história. Se ele não tivesse acontecido, a História (com H maiúsculo) poderia ter sido bem outra.

É o que você vai entender, lendo.

O pior negócio da história

Publicado originalmente em 24.10.11

Todo mundo aprende nas aulas de geografia que, no ranking de maiores países em extensão territorial, o Brasil está em quinto lugar. Antes dele estão Rússia, Canadá, China e Estados Unidos. O que pouca gente sabe é que, se não fossem os russos, o Brasil seria até hoje o quarto maior, na frente dos Estados Unidos.

“Como assim? Os russos ajudando os americanos?”

Bem, não exatamente “ajudando”, mas “sendo burros” em favor dos americanos.

Muita gente esquece, mas até 1867 o Alasca era uma possessão russa. Aproveitando-se do fato de que o estreito de Bering ficava congelado a maior parte do ano, os primeiro povos russos estenderam sua posse até a América. Ficaram, assim, com um cantinho do mundo que unia a Ásia ao continente americano.

O problema começou quando a Rússia entrou numa disputa territorial contra o Império Otomano, auxiliado por Inglaterra e França. Na Guerra da Criméia, ambos os lados disputavam o controle do estreito de Dardanelos, região estratégica para o acesso do Mar Negro ao Mediterrâneo.

Obviamente, com o apoio de duas grandes potências,  o Império Otomano acabou vencendo o Russo. Para a Rússia, além da derrota, ficaram as dívidas de guerra.

Foi aí que o então Secretário de Estado americano William Seward teve uma brilhante idéia. Por que não se oferecer para comprar aquela terra inóspita e abandonada à Rússia?

Muita gente de seu país foi contra. Achavam burrice gastar dinheiro com uma terra que, segundo o senso comum da época, não valia nada. Pesou, no entanto, a determinação de Seward e o instinto expansionista americano, disposto a aumentar seu território até onde não pudesse mais.

Com uma mala de dinheiro na mão e uma proposta de compra na cabeça, Seward foi negociar com os russos. Com os credores batendo à porte, o Czar Nicolau I achou que seria uma boa idéia. Afinal, terra era o que não lhe faltava. Lero vai, lero vem, fecharam o acordo em US$ 7,2 milhões.

E assim, em 1867, o Alasca juntava-se ao território americano.

Duas décadas depois, para lamento russo, descobriram ouro na região. A Corrida do Ouro foi um episódio tão violento do ponto de vista econômico que chegou a colocar a pulga atrás da orelha no próprio Marx. Riqueza em grande abundância criada do nada fez o barbudo pensar que talvez sua teoria do capital não estivesse, assim, tão certa.

Pra aumentar a decepção russa, já no século XX grandes reservas de petróleo foram encontradas. Os americanos, os maiores bebedores de óleo do planeta, penhoradamente agradeceram.

Fora as perdas econômicas, os russos ainda abriram mão de um território que teria importância estratégica imensa durante a Guerra Fria. Se tivessem mantido o Alasca, além da extrema proximidade com o território americano, os russos ainda teriam o controle total do Estreito de Bering, controlando, por conseguinte, o acesso ao Ártico, palco de 11 em cada dez exercício militares com submarinos naqueles tempos.

Por essas e por outras, a venda do Alasca aos Estados Unidos é, disparado, o pior negócio da história.

Alguém discorda?

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Trilha sonora do momento

Hoje partiu deste plano da existência o grande Carl Weathers.

E é impossível pensar em Rocky sem pensar em Apollo Creed, a personagem imortalizada por Weathers (embora ele tenha feito muitos outros papéis na vida).

Como singela homenagem deste recanto esquecido da Web, vai um clip do lendário treinamento de Rocky por Apollo, em Rocky III.

Porque um não poderia existir sem o outro…

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Pensamento do dia

Você nunca vai se sentir tão só quanto no momento em que você precisa passar protetor solar nas costas.

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A palhaçada da extrema-direita, ou Salvem o foro privilegiado – Parte II

Era só o que me faltava.

Quando a máquina judiciária, comandada pela mão-de-ferro do ministro Alexandre “Xandão” de Moraes, começa a sair dos bagrinhos para pegar enfim os baiacus, lá vem a galera da extrema-direita defender o “fim do foro privilegiado”. Como se cara-de-pau pouca fosse bobagem, os defensores dessa “proposta” nem sequer fazem questão de esconder o que está por trás do embuste: uma “anistia” para “apaziguar” o país.

Sem meias palavras, essa estultice é vulgar na forma, hipócrita no fundamento e, acima de tudo, vergonhosa nos propósitos a que se destina.

A proposta do fim do foro privilegiado é vulgar na forma porque, assim como em todas as outras oportunidades em que ela surge (cf. aqui), os parlamentares só começam a defendê-la quando gente que lhes é próxima começa a ser acossada pelo braço da Justiça. A proposta ora em análise, por exemplo, foi aprovada pelo Senado em 2017. Desde então, encontra-se parada na Câmara dos Deputados.

Nesse período, contam-se quatro anos de governo Bolsonaro, mandato no qual a extrema-direita não só dispunha de maioria folgada no Congresso, como ainda contava com a caneta amiga na mão do Presidente. Por que não fizeram esse esforço lá atrás, deixando-o para fazer agora? Entre outras coisas, porque as rachadinhas do gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro recomendavam que o filho 01 do Jair buscasse o refrigério das cortes superiores, e não o calor do juiz de 1º grau que havia mandado quebrar o sigilo bancário dele, de Fabrício Queiroz e Cia. Ltda. Agora, quando parte dessa gente começa a sentir o bafo da PF queimando o cangote, esse pessoal vem falar em derrubar o “privilégio”.

A proposta de fim do foro privilegiado é hipócrita no fundamento porque, essa galera que agora está a defender o fim do foro privilegiado, é a mesma que defende a tese segundo a qual “bandido bom é bandido morto e enterrado pra servir de adubo”. Dê-se por entendido, portanto, que o pessoal da extrema-direita reza por outra cartilha quando é gente da sua laia é investigada. Aparentemente, para eles “bandido bom” é bandido que comete crimes – inclusive contra a democracia – desde que seja “a nosso favor”.

Por fim, a proposta do fim do foro privilegiado é vergonhosa nos propósitos a que se destina porque seu intuito não é o somente de tirar das mãos de Alexandre de Moraes a condução dos inquéritos que estão a acossar aqueles que passaram quatro anos tendo seus crimes acobertados pelas ameaças anti-democráticas de Jair Bolsonaro. Isso é só o começo. A idéia, como o próprio Senador Rogério Marinho fez questão de frisar, é anistiar todos esses criminosos, sob o argumento de que “essa é a cultura do Brasil, do apaziguamento, sem que haja possibilidade de que aqueles que cometeram crimes sejam processados de maneira adequada” (negrito nosso).

O que esse pessoal está tentando, em resumo, é simplesmente impedir que se investiguem os inúmeros crimes cometidos por Jair e sua trupe nos quatro anos de desgoverno bolsonarista, seja através de uma burla à jurisdição do STF, seja através de uma anistia direta a todos os envolvidos nesses malfeitos.

Não é hora daqueles que entendem o que está em jogo recuarem. Muito menos daqueles que, entendendo o que está em jogo, omitirem-se com medo de enfrentar as consequências de suas posições. O que a vida quer da gente é coragem, como diria Guimarães Rosa.

Anistia?

Nunca mais.

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