Que há uma crise nos debates das eleições brasileiros, isso só as avestruzes não vêem. No último domingo, a TV Bandeirantes deu início à série de debates para as eleições presidenciais deste ano. Das seis cadeiras reservadas, metade ficou vazia. Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema fugiram da raia. Por pouco o nanico Augusto Cury também não roeu a corda, o que deixaria a arena reserva para uma espécie de “duelo” entre apenas Ronaldo Caiado e Renan Santos. É triste.
As justificativas foram as mais variadas. Lula não foi porque, segundo sua assessoria, não queria “ouvir bobagem”. Flávio Bolsonaro pelo menos foi sincero: não foi porque Lula não foi (ou seja: se o outro não vai se queimar, eu é que não vou entrar na roda). E Romeu Zema não foi porque, presumivelmente, também não quis ouvir bobagem — embora, nesse caso, a bobagem provavelmente viesse dele mesmo. Sem os dois candidatos que lideram as pesquisas, restou a Caiado reclamar dos fujões e a Renan Santos produzir cortes toscos de lacração para suas redes sociais. Deprimente.
Em favor dos que fogem dos debates como o diabo da cruz, há uma justificativa teórica que os ampararia. Do como como estruturados hoje, o formato dos debates é ruim. No modelo atual, qualquer candidato de partido com representação suficiente no Congresso tem a prerrogativa de comparecer ao debate. Foi esse tipo de regra que permitiu, por exemplo, a bizarrice de vermos Padre Kelmon nos debates de 2022. Candidato-satélite do bolsonarismo. o famoso “Padre de Festa Junina” fora colocado na disputa com o propósito específico de tirar Lula do sério e defender Bolsonaro de graça. Não havia nenhum programa de governo, nenhuma intenção real de governar e nenhum resultado eleitoral que justificasse sua presença. Miserável.
Mas, se o atual formato representa um problema para os debates, ele está longe de justificar a pura e simples ausência. Fato.
Quem quer presidir um país de 215 milhões de habitantes, com a décima maior economia do mundo e uma democracia que vem de anos de convulsão institucional, com direito a tentativa de golpe de Estado, tem a obrigação elementar de se submeter ao escrutínio público em um confronto direto com seus adversários. Não numa entrevista para a mídia amiga, onde as perguntas chegam previamente comunicadas e o entrevistador apenas sorri e segue em frente quando o candidato sai pela tangente. É nos debates que o adversário responde, onde o candidato é pressionado, onde as inconsistências aparecem e onde o eleitor pode assistir, em tempo real, do que o sujeito é feito quando a porca entorta o rabo.
É importante destacar que democracia não é só o dia da eleição. É o processo inteiro. E é nos debates que o candidato presta contas pessoalmente, sem intermediário, sem assessor ao lado sussurrando a resposta, sem texto de teleprompter ditado pelo marqueteiro. Recusar isso é recusar-se ao escrutínio. E recusar-se ao escrutínio é, no fundo, desrespeitar o eleitor.
“O que fazer, então, para melhorar?”
Vamos a duas propostas concretas
Primeiro: a lei deve estabelecer a participação obrigatória dos candidatos em pelo menos três debates antes do primeiro turno. Um na primeira semana de campanha oficial, outro no meio do período e o último nas vésperas da eleição. Calendário fixo, regras claras, sem surpresas. Um candidato poderia faltar, com justificativa aceita pela Justiça Eleitoral, a apenas um desses três. Se a falta for, o sujeito perde o equivalente a uma semana de horário eleitoral gratuito. Se faltar a dois sem razão, aí é caixão e vela preta: impugnação da candidatura. Simples, direto e sem direito a choro.
Segundo: todos os debates seriam transmitidos simultaneamente por todas as emissoras de televisão aberta do país. Sem competição de audiência, sem escolha de qual emissora vai sediar o evento do dia, sem fragmentação de público. O Brasil inteiro assistindo ao mesmo debate ao mesmo tempo, como acontecia com a Copa do Mundo antes de a transmissão se pulverizar entre plataformas. O efeito colateral benéfico é que as próprias emissoras, obrigadas a transmitir o mesmo evento que todas as outras, teriam incentivo real para fazer um debate de qualidade. Afinal, o único diferencial passaria a ser as perguntas e a condução, não a exclusividade do conteúdo.
Não seria, claro, a panacéia de todos os nossos problemas eleitorais. Mas pelo menos submeteria os principais candidatos a um mínimo de escrutínio público antes de almejarem o seu voto. Resolver de verdade só através da famosa “reforma política”. O problema, como todo mundo sabe, é que desse debate todo e qualquer político foge, não só os candidatos.
Mesmo assim, o que se tem para hoje é o seguinte: no domingo passado, no primeiro debate televisionado de candidatos a presidente da República, metade dos cadeiras ficou vazia. Quem tem a pretensão de governar o país vai ter que aparecer mais cedo ou mais tarde em um recinto onde as perguntas não sejam combinadas com antecedência. E o nome disso é debate:
Sim, aquela coisa com púlpito que ficou vazia no último domingo…