A crise do Banco Master, ou A hipocrisia da extrema-direita

Que há uma crise no Supremo Tribunal Federal, só as avestruzes não vêem. Desde o estouro do escândalo do Banco Master, foi revelado que a mulher do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, fora contratada pela casa de Vorcaro por R$ 129 milhões. Noves fora o valor exacerbado do contrato, soube-se que o próprio ministro havia se encontrado com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, pelo menos duas vezes antes da liquidação do banco.

A repórter Malu Gaspar, do Jornal O Globo, sustenta que os encontros serviram para que Xandão pressionasse Galípolo a autorizar a compra do Master pelo BRB. Xandão, ao revés, rebate dizendo que se encontrou com o presidente do BC para tratar das sanções da Lei Magnitsky que o governo de Donald Trump impusera contra ele. As datas batem, isto é, os encontros teriam ocorrido posteriormente às sanções do Laranjão. Até aí, portanto, é a palavra da jornalista contra a do ministro. Jogo jogado.

O caldo começou a entornar de verdade quando outro ministro, Dias Toffoli, resolveu entrar na brincadeira. Numa decisão meio girafa, Toffoli mandou avocar toda a investigação para o Supremo. À primeira vista, parecia um despropósito. Não havia um único sujeito com foro por prerrogativa de função investigado. A “justificativa” seria de que, no meio do papelório encontrado, fora descoberto um contrato de empréstimo do Master com um deputado federal (João Carlos Bacelar, do PL da Bahia).

O problema: o contrato não foi assinado. Aliás, não só não foi assinado, como ambas as partes – Master e o deputado – negam que as tratativas sequer tenham seguido adiante. Se isso já seria suficiente para levantar uma sombra de dúvida sobre a decisão de Toffoli, pior ainda foi descobrir que ele tomou a decisão de avocar o processo para o STF depois de ter compartilhado uma carona em um jatinho de um empresário com o advogado de um dos diretores do Master, responsável pelo protocolo da petição que levou o caso ao Supremo.

Daí pra frente, como esperado, a coisa degringolou. Para além de decisões curiosíssimas – como a de determinar uma acareação entre pessoas que nem haviam sido ouvidas, ou a de escolher ele mesmo os peritos da PF que investigariam o material apreendido -, o noticiário começou a ser inundado com notícias embaraçosas, relacionando o patrimônio de Toffoli e da família a empreendimentos imobiliários e a negócios financeiros em que o Master estava envolvido.

O que levou Toffoli a tomar essa sequência de decisões controversas? Ninguém sabe ao certo. Todavia, pela nuvem de polêmicas que se levantou desde então, é no mínimo razoável entender que o ministro não possui a isenção necessária para tratar esse caso com a equidistância que se ordinariamente se exige dos magistrados. O melhor para todos, até para resguardo do próprio Toffoli, é que se ele afastasse voluntariamente e deixasse a PF tocar o inquérito como de praxe.

Se o imbróglio de Toffoli com o caso Master serviu para alguma coisa, porém, não foi para impor aos ministros do Supremo o mesmo código de conduta imposto aos demais magistrados. Se houve algo que toda essa confusão ajudou a iluminar foi a hipocrisia suprema da extrema-direita com sua pauta “anti-STF”.

Desde quando surgiu como movimento em 2018, dos alicerces “ideológicos” do bolsonarismo é a contestação ao Supremo. Com pedidos de impeachment atrás de pedidos de impeachment, Bolsonaro e sua trupe se lançaram numa cruzada de verdadeiro assédio institucional contra o STF, na vã esperança de controlar a Corte e impedir que ela se opusesse aos seus arroubos autoritários. Felizmente, o Supremo não se vergou e hoje, com Justiça, Jair e sua trupe de golpistas curte uma cana dura na Papuda.

Agora, no entanto, temos um “escândalo” que justificaria um pedido de impeachment contra um ministro do Supremo. Sem fazer qualquer juízo de valor se as acusações contra Toffoli são falsas ou verdadeiras, há no mínimo um conjunto de indícios razoáveis que autorizariam, em tese, a propositura de impedimento contra um magistrado do STF.

E cadê o bolsonarismo? Cadê as campanhas orquestradas nas redes insociáveis contra o Supremo? Cadê as manifestações de rua com faixas a dizer “Supremo é o povo”? Cadê o grito contra a corrupção e contra “tudo que está aí?”

Com a bola quicando na pequena área e sem goleiro, os bolsonaristas preferem – ao invés de chutar a bola ao gol e correr para o abraço – fazer uma caminhada inútil, que só serviu para emular uma idolatria de cunho religioso do novo xodó dos extremistas, o deputado Nicolas Ferreira. O Senhor parece ter se irritado com as violações ao primeiro – Amar a Deus sobre todas as coisas – e ao segundo mandamentos – Não invocarás Seu Santo Nome em vão -, e resolveu mandar Nicolas e sua trupe de fanáticos literalmente para o raio que os partisse, fazendo com que caíssem raios sobre a multidão.

Fingindo-se de morto, o candidato oficial da oposição, Flávio Bolsonaro, resolveu sair do país para não tomar parte da confusão. Utilizando como justificativa a idéia de “reforçar os laços com Israel”, o filho 01 de Bolsonaro guarda até aqui obsequioso silêncio sobre o escândalo do Master. Por quê? Porque Dias Toffoli suspendeu, numa canetada, o inquérito do MPRJ que investigava as famosas “rachadinhas” do seu gabinete de deputado estadual, comandadas pelo notório Fabrício Queiroz. Ademais, foi o BRB – que compraria o Banco Master para salvar Vorcaro – quem emprestou, numa transação pra lá de suspeita, milhões de reais para que Flávio Bolsonaro comprasse a mansão onde agora vive em Brasília.

Conclui-se, portanto, que nunca foi interesse dos bolsonaristas realmente investigar a fundo os eventuais desvios dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Sua idéia era apenas intimidar e acuar a corte para que não colocasse empecilhos à sua empreitada ditatorial. Assim como o lema “Deus, Pátria e Família”, também era falsa a noção de que essa gente lutava “contra o Supremo”. A única coisa verdadeira que há no bolsonarismo é a sua hipocrisia. O resto é uma mistura de empulhação, mentira e corrupção.

Que isso sirva de lição para a população nas próximas eleições.

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