Não tem outro nome para definir. Palhaçada é o que aconteceu no Senado com a votação do tal “PL da dosimetria”.
Substituto da já enterrada anistia aos golpistas do 8 de janeiro, esperava-se que o projeto de lei relatado pelo deputado Paulinho de Força fosse arquivado ou, pelo menos, melhorado no Senado. Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Não só o texto não foi à gaveta, como o que de lá saiu continuou tão ruim quanto antes. Antes de explicar os pormenores do projeto, convém antes falar um pouco sobre o contexto no qual ele foi parido.
Sabendo o que fez nos verões passados, Jair Bolsonaro passou a defender, desde o fatídico 8 de janeiro, uma “anistia” para quem tinha tentado dar um golpe de Estado no país. De início, dizia-se que a passada de pano ficaria restrita aos bagres que depredaram as sedes dos três poderes naquele dia. Como ninguém acreditasse em tal marmota, algum tempo depois o próprio Jair fez verbalizar que a fuga da cadeia deveria incluir também o Alto-Comando do Golpe, inclusive e especialmente ele próprio. Do contrário, nada feito.
O problema é que não havia voto pra aprovar esse escárnio. Sem alternativas à mão, restou à família Bolsonaro recorrer à estratégia suicida de enviar o filho 03 do chefe do clã aos Estados Unidos. A idéia era que, com a providencial ajuda de Donald Trump, os Bolsonaro “sequestrassem” o país. O resgate, claro, seria a anistia para Jair e toda a sua trupe.
Como se viu depois, a “estratégia” de Dudu Bananinha deu com os burros n’água. Embora tenha conseguido inicialmente convencer o Laranjão a taxar os produtos do Brasil em 50% e sancionar Alexandre de Moraes com a Lei Magnitsky, a falta de efetividade do ataque norte-americano à nossa soberania obrigou o próprio Nero Laranja a corrigir o rumo da sua nau diplomática.
Com a inflação dos alimentos a corroer-lhe a popularidade e vendo que nenhuma dessas medidas implicaria uma mudança de regime do país, Trump achou melhor se acertar com Lula. Depois de terem se cruzado rapidamente na ONU no final de setembro – o suficiente para rolar uma “química” –, Lula e Trump trocaram telefonemas, se encontraram na Malásia e parecem ter acertado todos os ponteiros.
Hoje, a maior parte da pauta de exportação brasileira para os Estados Unidos está isenta ou, na pior das hipóteses, taxada em 10%, como todo o resto do planeta. As sanções contra Xandão e sua esposa já foram revogadas. Nos próximos meses, deve-se ter o restabelecimento pleno da relação entre os dois países.
A rapidez com que o castelo de cartas erguido por Bananinha desmoronou dá a exata medida da loucura que foi acreditar nessa “estratégia”. Em menos de três meses, o Laranjão deu o dito pelo não dito, lançou Bolsonaro ao mar e se tornou quase best buddy do presidente brasileiro. Uma mudança tão radical, em um espaço tão curto de tempo, mostra como Trump deve ter farejado que ficar abraçado com os Bolsonaro seria um mau negócio.
Sem os Estados Unidos para fazer o papel de “irmão mais velho”, restou aos Bolsonaro recorrer à estratégia do “homem-bomba”. Ou, mais especificamente, da “candidatura-bomba”. Com meio mundo do mercado financeiro e boa parte do Centrão articulando uma candidatura de Tarcísio de Freitas à presidência, Bolsonaro resolveu lançar seu filho Flávio como sucessor. Resultado: a bolsa derreteu e o dólar disparou.
Assim como no caso das sanções norte-americanas, a estratégia dos Bolsonaro agora é clara como água de bica: se o Centrão não desse um jeito de conseguir a anistia aos golpistas, Jair iria “explodir” o campo da direita. Com a candidatura de seu filho 01, o caminho para um eventual segundo turno contra Lula ano que vem estaria interditado. Tarcísio já avisara que não concorreria contra um Bolsonaro e, pior, as pesquisas depois do anúncio colocavam Flávio como candidato mais bem posicionado do que o governador paulista. Logo, ou eles entregavam a anistia, ou iriam todos perder para Lula em 2026.
Como o Centrão pode ser tudo, menos bobo, saiu-se com a proposta da dosimetria para oferecer um doce à extrema-direita bolsonarista. A idéia era aprovar a redução das penas agora e, caso Tarcísio ganhasse ano que vem, se voltaria a discutir a anistia em 2027. A questão é que, como já foi alertado aqui, o projeto da dosimetria – tal como formulado – passa a mão na cabeça não só dos golpistas de 8 de janeiro, mas também de um monte de criminosos.
Fora isso, por trás desse balé de elefantes na sala, há uma verdadeira briga de foice no escuro entre o Centrão e os Bolsonaro. O Centrão quer os votos de Jair, mas não quer que ele lidere mais coisa alguma, já que ele é hoje o político mais rejeitado do país. As raposas do Centrão querem que Jair indique outra pessoa para sucedê-lo – necessariamente alguém de fora da família – para no momento seguinte passar-lhe a perna e tocar o barco sem as convulsões ideológicas e sociais que o bolsonarismo traz consigo.
Jair tanto sabe disso que até o momento se recusou a ceder à chantagem do Centrão. Quis uma espécie de “pagamento à vista” de um apoio a ser concedido a prazo. Daí o “sequestro” da candidatura da direita por Flávio Bolsonaro. Porém, o Centrão erra se acredita que o pagamento do “resgate” da dosimetria será suficiente para fazer com que Bolsonaro nomeie um sucessor escolhido pelo grupo. Bolsonaro não confiou sequer na mulher, Michelle, para essa tarefa (por isso escolheu seu filho mais velho). Por que haveria de confiar em alguém de fora da família para sucedê-lo (ainda mais alguém que pretende montar vôo solo)?
Mesmo que o Senado aprove essa palhaçada, Lula haverá de vetar pelo menos as partes do projeto que beneficiam diretamente Bolsonaro. Como o final de ano se avizinha, qualquer discussão sobre os vetos ficaria, na melhor das hipóteses, para depois do carnaval. E, claro, ainda haverá o julgamento sobre a constitucionalidade do troço na Supremo (spoiler: é inconstitucional). Para lançar Tarcísio a presidente, o Centrão precisaria que tudo estivesse arranjado até, no máximo, abril do ano que vem, quando termina o prazo para desincompatibilização do governador de São Paulo.
Vai dar tempo?