Não foi nas 48h então imaginadas, mas o dia chegou.
É o que você vai entender, lendo.
Xeque-mate, ou As entranhas do Zap bolsonarista
Publicado originalmente em 21.8.25
Não que tenha sido surpresa, mas, mesmo para quem não é bolsonarista de carteirinha, abala um pouco.
Às vésperas do julgamento do núcleo principal da trama golpista, a Polícia Federal indiciou Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo, o famoso “Bananinha”, por coação no curso do processo e (uma nova) tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Trata-se de desdobramento da última ação contra Bolsonaro pai, que, ao receber uma série de medidas cautelares para não ser preso, teve seu telefone apreendido pela PF. O que saiu agora é resultado dos dados extraídos do aparelho de Jair.
Fora o emprego intensivo de vocabulário de baixo calão – o que, de resto, não constitui novidade pra ninguém -, o que emerge das conversas trocadas no escurinho do Zap bolsonarista é aquilo que a toda a gente já sabia, mas só os zumbis da Bozolândia se recusavam a enxergar:
1 – Os Bolsonaros não estão interessados numa “anistia light” (palavras de Dudu Bananinha), assim entendida como uma anistia que salvasse os peixes pequenos que já foram condenados pela depredação do 8 de janeiro. Interessa, apenas uma anistia “ampla, geral e irrestrita”, que tire o pescoço de Bolsonaro da corda e, de quebra, salve também o pescoço do filho, autoexilado na Disney. Os bagres são apenas o pretexto utilizado para alcançar esse fim;
2 – Bolsonaro não é líder de coisa alguma, nem sequer da própria família (você viu antes aqui). Para além de ser inconcebível que qualquer filho que tenha o mínimo de apreço pelo pai jamais o mandaria “chupar caju”, ao mesmo tempo em que o xingaria de “ingrato do baralho” (as adaptações em prol da boa higiene vernacular deste espaço são minhas), fica claro que Bolsonaro não tem qualquer poder de ingerência sobre os satélites que o rodeiam. O que fica claro, em resumo, é um verdadeiro processo de barata-voa, em que o Bananinha tenta se cacifar pra ser o “ungido” do clã para concorrer a presidente ano que vem, ao passo que Tarcísio – o “moderado” (risos) – tenta a mágica de comer pelas beiradas sem parecer que está traindo Bolsonaro;
3 – As tarifas têm a ver com Bolsonaro, ma non troppo. A subserviência demonstrada por Jair a Donald Trump durante toda a sua presidência é conhecida de todos, mas não deixa de chocar ver que ela é sincera e se mantém mesmo quando longe dos holofotes. Só isso pode explicar como Bolsonaro possa ter enviado mensagens tão subalternas ao advogado do Laranjão, Martin de Lucca, agradecendo pelo tarifaço e pedindo orientações sobre “como proceder”. É o tipo de sabujismo que é indigno de qualquer ser que possua coluna vertebral;
4 – Com a proximidade do julgamento e da prisão definitiva de Bolsonaro, o desespero tomou conta da família. Não sabem mais para onde atirar e, sem saída, topam qualquer parada para tentar livrar o chefe do clã da cadeia.
Liberados a duas semanas do início do julgamento da trama golpista, os áudios vadios destroem qualquer resquício de dignidade que havia na imagem pública dos Bolsonaro. Já em prisão domiciliar, Bolsonaro agora vê-se na perspectiva de ser enviado para uma dura preventiva antes de ser julgado. Motivos não faltam. Não só pela reiteração criminosa (proteção da ordem pública), como, também, por ter ficado comprovado dezenas de violações sucessivas das medidas cautelares que lhe haviam sido impostas pelo ministro Alexandre de Moraes
A se confirmar o prognóstico das 48h prometidas por Xandão, amanhã deve haver o maior “SEXTOU” da história da República. Preso, sem acesso às mordomias do lar e ficando de fato sem comunicação com o mundo exterior, a Bolsonaro só restará tentar acertar o bingo da sentença condenatória que lhe espera. A chance de reversão judicial é nenhuma e, depois das investidas de Trump, a via da anistia via Congresso parece definitivamente interditada.
Bolsonaro, enfim, será devolvido à irrelevância da qual nunca deveria ter saído. Tendo surfado a onda anti-petista de 2018, Jair finalmente descobrirá que nunca foi o “Lula da Direita”, mas tão-somente o “anti-Lula de ocasião”. Quando isso acontecer, poderá enfim refletir sobre o sábio ditado:
“Nunca voe muito alto em asas emprestadas”.