A crise da Covid-19, ou O mundo pós-pandemia

Regressando aos trabalhos aqui no Blog depois do nosso tradicional recesso quaresmal, mas ainda quarentenado para resguardar a saúde minha e alheia, é hora de analisar a razão da angústia de toda a gente neste último mês e meio: a pandemia da Covid-19.

Ainda em janeiro, notícias desencontradas partiam da China sobre o surgimento de um novo coranavírus, de uma cepa semelhante à da antiga SARS, que assombrara o mundo na virada do milênio. Ninguém sabe quando, ninguém sabe exatamente como, mas o fato é que essa figura exótica do mundo biológico resolveu dar as caras novamente. E, ao contrário do que ocorreu em 2002, dessa vez o mundo parou. Literalmente.

Muito já se falou e se escreveu sobre a Covid-19. No entanto, até agora, pouco se sabe sobre a doença e menos ainda como tratá-la. Sabe-se que ela ataca principalmente as vias aéreas e pode descer para os pulmões, causando uma pneumonia grave e súbita, muitas vezes letal. Daí pra frente, a maior parte é mistério.

Para não mais perder o vosso tempo, vamos analisar as três principais questões sobre a Covid-19:

1- Qual o índice de letalidade do vírus?

Não se tem certeza. Sabe-se, apenas, que o percentual de mortalidade de Covid-19 varia absurdamente entre um país e outro. É possível encontrar percentuais ridiculamente baixos, como Israel (1%), até percentuais inimagináveis, como a Itália (13%). No Brasil, a letalidade atual indica um percentual aproximado de 6% de óbitos. Mas por que há tantas variações?

Uma das pistas, claro, passa pela quantidade de testes realizados na população em geral. Como o vírus é um só no mundo inteiro (se a Covid-19 sofreu mutações, até agora não se tem notícia de que tenham alterado sua letalidade), a principal suspeita sobre essa discrepância recai na subnotificação.

Em países onde se testa mais (Coréia do Sul, p. ex.), é possível realizar um cálculo mais fidedigno, porque o conjunto engloba tanto os assintomáticos quanto os que têm sintomas leves e, por isso, não procuram o serviço de saúde. Por outro lado, países que realizam menos testes; ou que testam apenas os que procuram os serviços de saúde; ou, pior ainda, que testam apenas os casos graves que necessitam de UTI e os falecidos, o percentual de letalidade tende a ser mais alto (por razões óbvias). Infelizmente, este último é o caso do Brasil.

Dos países que mais testaram, é possível inferir que a taxa média de mortalidade da Covid-19 gira entre 1% e 2%. Donde se conclui que, quanto maior a taxa de letalidade em um determinado país, maior deve ser a proporção de subnotificação de casos reais na população. E a razão para isso é simples: se os assintomáticos e os que têm sintomas leves não se submetem à testagem virológica, o universo de pessoas sobre a qual é realizada a contagem de mortos naturalmente diminui, distorcendo o resultado real.

Desconsiderando-se outros fatores que podem eventualmente alterar esse percentual (como estrutura etária da população, IDH e acesso universal a serviços de saúde), pode-se inferir, grosso modo, que o percentual de 6% de mortalidade da Covid-19 indica que o número real de infectados é, no mínimo, o triplo daquele divulgado oficialmente. Estamos, portanto, operando no escuro, diante de um dos maiores desafios já colocados frente à humanidade.

Não que isso seja surpresa. Pelo contrário. De acordo com a OMS, o Brasil apresenta um índice de apenas 296 testes realizados por milhão de habitantes. Alemanha e Portugal, por exemplo, ostentam índices ao redor dos 20 mil (mil!) testes por milhão de habitantes. Pode-se sempre argumentar que o Brasil não pode ser comparado à Europa. Mesmo assim, como explicar que o Chile teste quase 5 mil pessoas por milhão de habitantes? Ou que o Uruguai teste mais de 3 mil? Enquanto o mundo inteiro corre para poder testar o máximo de gente, aqui continuamos comendo mosca nesse aspecto.

2 – Qual o tratamento para a Covid-19?

Essa é simples. Não há tratamento. Simplesmente não há. Ponto. Por mais que exista gente por aí querendo vender soluções milagrosas, o fato é que não existe qualquer estudo que indique, comprovadamente, que exista uma abordagem terapêutica eficiente para curar o paciente da Covid-19. O que os médicos fazem com os pacientes mais graves é simplesmente entubá-los, mantendo artificialmente em funcionamento a oxigenação do doente, de modo que o corpo tenha tempo de tentar reagir naturalmente à infecção. No mais, só resta rezar.

Existem, claro, esperanças. Já há dezenas de estudos sendo rodados mundo afora em busca de algum medicamento desenvolvido para tratar outra enfermidade que possa servir no tratamento da Covid. A tão afamada cloroquina, vendida como panacéia por muita gente, é apenas um deles e não é nem sequer o principal, dado os seus efeitos colaterais. Existem estudos sobre retrovirais utilizados no tratamento da AIDS e até com vermífugos como a nitazoxanida. Por ora, há mais fumaça do que qualquer outra coisa.

É justamente por isso que o isolamento social é tão importante. Sem vacina e sem tratamento, a única forma de mitigar os efeitos nefastos da epidemia é tentar diminuir a quantidade de casos. Como 100% da população mundial é passível de contrair Covid-19, e dado que se trata de um vírus altamente contagioso, manter a normalidade significaria colocar em risco todo o sistema de saúde.

E aí a matemática é implacável. Se 10% de uma determinada população contrair o vírus, apenas os 20% que normalmente precisam de internação e cuidados intensivos seriam suficientes para abarrotar os hospitais com pacientes de Covid-19. Pior. Como não há tratamento específico, senão esperar que o corpo reaja ao agente intruso, o “tratamento” de cada paciente de Covid-19 leva, em média, 20 dias de internação. E isso, claro, sem levar em consideração outras enfermidades que quotidianamente atingem todo mundo, como infartos, derrames e apendicites.

A questão do isolamento social passa, portanto, pela compreensão de que o verdadeiro protegido pela quarentena não é o cidadão que fica dentro de casa, mas o sistema de saúde da sua cidade. Quanto menos gente contrair o vírus ao mesmo tempo, e quanto maior for o espaçamento entre as contaminações, menor será a possibilidade de um colapso do sistema médico. E é sempre bom lembrar: colapso do sistema de saúde significa impor aos médicos a desumana tarefa de escolher quem vive e quem morre, porque não há vagas para internação de todo mundo.

3 – Quando vamos sair da quarentena?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares. E a resposta mais honesta é: “Não sei”. Porque ninguém realmente sabe.

A região de Wuhan, por exemplo, decretou lockdown em 23 de janeiro (nada a ver com essa “quarentena light” a que estamos voluntariamente submetidos) e começou a sair aos poucos em 8 de abril. A Alemanha planeja reabrir escolas no começo de maio e começa a articular a reabertura de parte da sua indústria para o meio do mês. Isso sem falar nos casos de Cingapura e Coréia do Sul, que nem sequer pararam, pois tinham as costas marcadas pela crise da SARS de 2002 e já tinham desenvolvido grande arsenal para enfrentar pandemias dessa natureza.

O que há de comum entre todos esses exemplos é, além do distanciamento social, a política de testagem em massa. A Alemanha já produz 500 mil testes por semana (semana!) e quer passar para um milhão e meio para poder sair com mais tranquilidade do aperreio. O Brasil agora que chegou a 60 mil no total, isto é, desde quando a pandemia chegou por aqui. Enquanto isso, cidades como Manaus, Recife e Fortaleza já começam a se assombrar com o colapso de UTIs. Sem testagem em massa e sem um aumento dramático na quantidade de leitos disponíveis para internação, qualquer iniciativa de “retorno à normalidade” será temerária.

A verdade – é triste reconhecer – é que hoje estamos muito longe de ver uma luz no fim do túnel desta pandemia. Parafraseado Churchill, não estamos vendo o fim. Não estamos vendo sequer o começo do fim. E nem mesmo o fim do começo.

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