A tragédia de Brumadinho

No seu clássico 18 Brumário de Luís Bonaparte, Karl Marx – citando Hegel – fala que todo fato histórico acontece, por assim dizer, duas vezes: a primeira, como tragédia; a segunda, como farsa.

Vivesse o barbudo no Brasil dos tempos atuais, Marx teria de reformular seu pensamento. Aqui, em algum lugar abaixo do Equador, os fatos históricos acontecem muito mais que duas vezes. E, em todas as vezes, o resultado é uma tragédia. Tal é a constatação de quem vê a repetição do drama de Mariana em Brumadinho, nas mesmas Minas Gerais onde, há pouco mais de três anos, ocorrera episódio semelhante.

Obviamente, nada acontece por acaso, e a tragédia de Brumadinho não seria exceção à regra. Desde o desastre de Mariana, pouco mudou e menos ainda se fez em relação às barragens de rejeitos da mineração de ferro no interior de Minas. A Vale continua a explorar o minério como os bandeirantes no século XVI. O método pode até ter evoluído um pouco, mas o descaso com o meio ambiente continua o mesmo. Ninguém está nem aí pro tamanho da desgraça que se abate sobre o ecossistema local em virtude da exploração predatória da terra.

Evidentemente, a repetição da tragédia dentro do mesmo quinquênio, com saldo de vítimas exponencialmente maior no segundo caso, amplifica a repercussão do desastre. O problema, contudo, é que tudo no Brasil parece se esgotar em duas semanas de noticiário. Passada a fase de interesse inicial, na qual todo mundo só sabe falar da mesma coisa, aparece um escândalo aqui, uma intriga política acolá, e logo as máquinas das redações começam a rodar em outra voltagem. Enquanto isso, a tragédia que fica, que vitimou tantas pessoas e que destroçou tantas vidas, rebaixa e desonra em caráter permanente.

A essa altura, parece evidente que, se Mariana tivesse resultado em pesadas multas ambientais, responsabilização dos envolvidos e em maior fiscalização por parte do Governo, o drama poderia ter sido evitado. Mas, como diz o ditado, se meu avô usasse saia, seria minha avó. Nada disso aconteceu, e aqui estamos novamente debatendo mais um rompimento lamacento de rejeitos de mineração.

Do ponto de vista econômico, engana-se quem acha que “o capital pune”. As ações da Vale despencaram 25% em média na última segunda feira, é fato. De lá pra cá, no entanto, já recuperaram quase metade da queda. Não seria nenhuma surpresa constatar daqui a poucos meses que o valor de mercado da empresa já superou aquele do dia do rompimento da barragem de Brumadinho.

Vende-se na alta, compra-se na baixa, dirão os especuladores. Mas, enquanto uns embolsam uma fortuna à custa da tragédia alheia, as vítimas ficam a depender da “benevolência” da Vale, que diz que doará R$ 100 mil a cada família atingida. Um troco, principalmente quando se sabe que acionistas minoritários sediados nos Estados Unidos propuseram uma ação coletiva contra a empresa pedindo uma indenização bilionária – e em dólar – pelos prejuízos financeiros que lhe foram causados pela negligência operacional da empresa.

Aqui no Brasil, claro, acontecerá nada. Nem class action, nem muito menos indenizações decentes a quem teve a vida destroçada pelo desmoronamento da barragem. No dia em que houver pessoas responsabilizadas criminalmente pela desgraça, em que empresas sofrerem condenações financeiras pesadas impostas pela Justiça e em que os órgãos de regulação estejam suficientemente aparelhados para fiscalizar uma atividade tão nociva quanto a mineração, pode ser que algo mude.

Até lá, contudo, só nos resta chorar…

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