A histeria anticomunista

Parece piada, mas não é.

150 anos depois de Marx, 100 anos depois da Revolução de Outubro de 1917 e quase 30 anos depois da queda do Muro de Berlim, o assunto da moda nas rodinhas políticas brasileiras, sim, é ele mesmo: o comunismo.

Como doutrina filosófica, o comunismo assenta suas bases na idéia de uma sociedade totalmente igualitária, sem Estado e sem corporações privadas, no qual os indivíduos compartilham direitos e obrigações de maneira a que não haja nem míngua nem sobra. Todos colaboram com todos, na medida de suas possibilidades, e vivem exatamente com aquilo de que precisam. Nem mais, nem menos.

Embora o mais comum seja associá-lo a Karl Marx, na verdade pode-se encontrar traços do que se pretende entender como doutrina comunista desde a Antiguidade. Platão, por exemplo, defendeu algo parecido com ele n’A República. Com o tempo, contudo, várias outras sedições que visavam a extinguir privilégios de classe, seja da nobreza, seja do clero, vieram a ser classificadas como “comunistas”, transformando o termo quase em sinônimo de “subversão”. Marx, contudo, detém a primazia na estruturação de um pensamento científico destinado a conferir forma e conteúdo a um estilo de sociedade antes tido como meramente abstrato.

Uma vez que a idéia de igualdade sempre exerceu uma atração quase irresistível nas mentes e nos corações de jovens sempre dispostos a “mudar tudo isso que está aí”, não é preciso ser nenhum gênio que logo, logo passou a se disseminar mundo afora. Quase sempre as insurreições davam em nada, ou apenas em mais repressão bruta do establishment, o que fatalmente acabava por estigmatizar ainda mais os adeptos da causa. Numa dessas, contudo, a jogada deu certo e o resultado foi a derrubada do Czar da Rússia e o nascimento da União Soviética.

Em que pese a ignorância de muitos, o comunismo como doutrina nunca foi fielmente aplicado em parte alguma. Nem na União Soviética, nem no Cambodja, nem muito menos na China. O que havia, então, era o chamado “socialismo real”, que representaria algo como um “estágio evolucionário” da sociedade para que, no final, fosse possível alcançar a tão desejada igualdade total.

Como seria de se esperar, a História mostrou que a suposta alternativa real era uma pantomima. Se os seres humanos não são iguais, como supor uma sociedade plenamente igualitária? Na verdade, uma sociedade que impusesse regras de equivalência tão estritas transformaria o vocábulo “igualitário” em algo como “totalitário”. E, curiosamente, quem teve mais “sucesso” nessa “empreitada” talvez tenha sido a Coréia do Norte, com resultados conhecidos.

No Brasil, o comunismo nunca teve vez. Salvo por um breve interregno nos anos 30, com a Intentona Comunista de 35, nunca houve experiência comunista a sério, nem mesmo por seus partidários. O exemplo, contudo, serviu para alimentar o “fantasma vermelho”, a ponto de transformar um pequeno burguês como João Goulart, estancieiro do Rio Grande casado com uma mulher com porte de miss, em servo da causa.

Passados mais de 50 anos da última vez em que o espasmo anticomunista deu as caras no país, eis que ele volta à tona toda a histeria típica daquela época. E, parafraseando Marx, se naquela época o mote serviu para consumar uma tragédia, agora ele tenta se repetir como farsa.

Pululam nas redes sociais de todo o país correntes em favor de Jair Bolsonaro. Até aí, tudo bem. Até outro dia o sujeito tinha 8 segundos de propaganda eleitoral e a única forma de atingir seu público era através das correntes de Zap-Zap. O problema, no entanto, ocorre quando se pretende enquadrar qualquer um que o critique, seja pela forma, seja pelo conteúdo, como “comunista”.

Se alguma emissora de TV veicula uma entrevista antiga de Bolsonaro dizendo que deveria haver uma guerra civil no país, inclusive para matar gente inocente, lá vêm os seus seguidores e acusam a emissora de “comunista”. Se um jornal publica uma declaração do candidato dizendo que se alistaria sem problemas no exército nazista, lá vêm de novo os seus seguidores chamar o periódico de “comunista”. E se alguém – não importa quem seja – manifesta desconforto com posições verdadeiramente hostis de Bolsonaro a minorias, pimba! Tá lá mais um “comunista”.

No meio dessa histeria coletiva, os chamados “bolsominions” já conseguiram a proeza de “converter” ao credo marxista as seguintes pessoas e organizações de insuspeito passado conservador:

  • ONU;
  • Rede Globo;
  • Vaticano;
  • The Economist;
  • Reinaldo Azevedo;
  • Rachel Sheherazade;
  • Marine Le Pen.

O ridículo da formulação, espelhado pelo distinto rol das figuras subitamente convertidas ao “comunismo”, apenas evidencia que essa marcha da insensatez replica em grande parte outra grande histeria anticomunista da história: o Macarthismo. Naquela época, como bem apontou Edward R. Murrow, quem se opusesse aos métodos e à pessoa de Joseph McCarthy tinha que ser comunista. E, assim como então, a ser verdadeira a hipótese no caso de Bolsonaro, “there are an awful lot of comunists in this country”.

No fundo, o recurso retórico ao anticomunismo serve apenas como pano de fundo para a desqualificação liminar de críticas fundamentadas a um candidato que, até o momento, não conseguiu apresentar qualquer outra proposta que vá além de “tirar o PT do poder”. Logo o PT que, nos oito anos de mandato de Lula e no mandato e meio de Dilma Rousseff, foi uma verdadeira mãe para o tal do “Mercado”.

Analisando-se as correntes que circulam no WhastApp e os tuítes de gente que defende a sua campanha, a verdade – é triste reconhecer – é que a burrice venceu, meus caros. A burrice venceu.

Abaixo, o vídeo da histórica resposta de Edward R. Murrow a Joseph McCarthy:

 

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