Ensinando a criança a falar

Criança é uma graça. Desde bebê até chegar à adolescência, criança na casa é garantia de diversão na praça. Em um crescendo de fofura, ao primeiro sorriso segue-se o primeiro abraço, que é seguido pelo primeiro beijo, que é seguido pelos primeiros passos. Enquanto a aborrecência e seus hormônios indigestos não chegam, a vida dos pais experimenta só alegria. Afinal, quem pode resistir à ternura expressa nos olhos de um pequeno infante?

Andrézinho era assim. Simpático desde o berço, seu sorriso largo cativava quem ele encontrava pela frente. A força da expressão era tão grande que seus olhos castanhos ficavam espremidos entre as pálpebras, como se lutassem para continuar a enxergar o mundo enquanto a boca fazia o papel de estandarte. Quando Andrézinho começou a balbuciar as primeiras palavras, os pais mal conseguiam se conter de orgulho.

Mas sabe como é família, né? Sempre tem aquele tio chato disposto a aperrear o juízo do filho alheio. Não importa o grau de afetividade com o casal. Parece que o parentesco confere uma espécie de carta-branca pro sujeito fazer o que quiser com a criança, mesmo a contragosto dos pais. Foi o que aconteceu com Armando.

Irmão da mãe de Andrézinho, Armando era daqueles que perdia o parente, mas não perdia a piada. Quando Andrézinho começou a balbuciar as primeiras palavras, Armando viu logo que o miúdo tinha a tendência de repetir in litteris o que o interlocutor lhe pronunciava. O que era pra ser algo natural dentro do processo de aprendizagem do menino passou a ser motivo de zoação do tio.

“Diga ‘bom dia’, Andrézinho”, pedia-lhe Armando.

“Diga bom dia”, repetia todo serelepe o menino. Como a criança não conseguia fazer distinção entre a genuína felicidade e o deboche escancarado, a zoação prosseguia:

“Diga ‘bom dia’, Andrézinho”, insistia Armando.”Diga bom dia”, repetia Andrézinho.

Chateado com a troça do cunhado, o pai do Andrézinho foi ter com a mulher.

“Você tem que fazer alguma coisa, minha filha? Vai deixar seu irmão ficar tirando onda com nosso filho desse jeito?”, reclamou o marido.

“Deixa pra lá, meu bem. É só brincadeira”, dizia a esposa, tentando botar panos quentes na controvérsia.

Ante a inércia da mulher, o pai resolveu preparar a vingança de Andrézinho. Sabendo que o cunhado viria mais tarde jantar em sua casa, o pai tirou a tarde desenvolvendo o vocabulário da criança. Quando Armando chegou, o pai foi logo fazendo propaganda do menino:

“Andrézinho está cada vez mais falante, Armando. Você nem imagina”, disse o pai orgulhoso, enquanto recebia o irmão da esposa.

“É mesmo? Que mais ele aprendeu além de dizer ‘diga bom dia’?”, perguntou ironicamente o cunhado.

“Você vai ter que descobrir sozinho”, respondeu em tom de mistério o pai.

Andrézinho entrou na sala. Vindo do seu quarto, o miúdo correu na direção do tio chato. Armando não se conteve:

“Diga bom dia, Andrézinho”.

“Diga bom dia”, respondeu de pronto a criança, para logo em seguida emendar: “Tudo bem?”

“Tudo”, respondeu Armando, em um misto de admiração e espanto.

Andrézinho apenas sorriu diante da surpresa do tio.

“E o que mais?”, provocou Armando, como se quisesse testar os limites do infante.

Foi quando Andrézinho respondeu:

“Vá pra puta que pariu!”, gritou sorrindo a criança.

E nunca mais Armando voltou a zoar com seu sobrinho.

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