Mágica etílica

Paulo era um sujeito introvertido. Tímido por natureza, pacato por opção, Paulo passou a adolescência inteira entre idas e vindas. Quando não estava na coordenação porque tinha aporrinhado algum professor, estava escondido pelos corredores gazeando a próxima aula. Entre uma coisa e outra, quando a sorte lhe sorria, aparecia ao lado de alguma menina mais faceira, como acontece com todo adolescente.

A despeito de seus hábitos reclusos, nas saídas à noite Paulo se transformava. Não, ele não passava um batom e colocava um vestido para se passar por traveco. Nada disso. Na verdade, Paulo assumia nas noitadas o que talvez fosse sua persona verdadeira: um sujeito altamente extrovertido, bom de copo e disposto a pintar e bordar. Foi numa dessas noites que Paulo apresentou a todos a sua mágica etílica.

Pouca gente se dá conta, mas a medida da masculinidade de um adolescente é dada em regra segundo dois parâmetros: a quantidade de mulheres que pega e a capacidade de  bebida alcoólica que ingere. Claro, depois que o cara se torna adulto ele percebe que nada disso importa lá muita coisa, quando não afasta as mulheres. Seja pela fama de galinheiro, seja pelo bafo de cachaça, o sujeito que pega geral e toma todas dificilmente tem muito sucesso com o sexo oposto.

Mas Paulo ainda não tinha chegado lá. Ele ainda estava no meio da adolescência, quando a cabeça parece entrar em conflito constante com o corpo. Os hormônios andavam a mil e, naquela noite específica, apareceu uma oportunidade para exibir toda a sua masculinidade.

Na Choperia Paulistana, havia um campeonato de virar copo. O artefato era uma caneca de 1 litro, enchida até a borda com chope de qualidade duvidosa. Três eram os candidatos. Na primeira rodada, o desafio era simplesmente virar o copo inteiro. Quem conseguisse a façanha ia a uma segunda rodada, com outro litro de cerveja, para tirar a dúvida sobre quem era o mais rápido a ingeri-la. O vencedor ganhava a noite inteira de bebida liberada para sua mesa.

De início, Paulo ficou meio ressabiado. Àquela altura, já tinha tomado umas tantas tulipas, e seu senso já não estava em seu perfeito juízo. Mesmo assim, incensado pelos amigos à volta da mesa, interessados no prêmio, estendeu o braço pra cima e voluntariou-se para a competição.

Numa mesa retangular, exposta na parte de cima do bar para todo mundo ver, colocaram-se os competidores e as respectivas canecas. Na primeira posição, um sujeito magro, mas tão magro, que ninguém nem imaginava para onde iria a cerveja depois que entrasse pela goela. Na segunda, o oposto: um sujeito gordo, mas tão gordo, que ninguém sabia se seria possível encontrar a cerveja dentro dele depois de ingerida. E, no final da mesa, inexpugnável na sua petulância, Paulo.

O primeiro candidato começou a virar o copo. Já pela metade, o sofrimento era visível, como se o sujeito estivesse a buscar ar enquanto sorvia a gelada. Passados alguns segundos, o magrinho entornou o copo vazio por sobre a mesa. Já havia um classificado para a segunda rodada.

O segundo candidato tratou o desafio como um passeio no parque. Parecendo que não tinha glote, o gordo ingeriu o litro de cerveja como se estivesse bebendo ar. Nem parecia que a bebida tinha descido pela garganta. Em poucos segundos, estava lá outra caneca vazia sobre a mesa. Restava somente Paulo.

Logo no primeiro gole, Paulo sentiu uma coisa estranha. As tulipas do restante da noite cobravam-lhe a conta. Mal tinha deglutido 100ml e Paulo já não conseguia engolir mais nada. Era como se toda a bebida estivesse parada na altura da garganta, impedindo que o volume da caneca descesse.

Paulo, no entanto, não quis nem saber. Disposto a manter a honra de “homem”, botou na cabeça que iria porque iria terminar aquela caneca. Ainda que perdesse na rodada seguinte, aquela caneca ele iria matar. Com grande dose de esforço, numa sequência quase interminável de um minuto, Paulo terminou de beber o conteúdo do copo.

Feliz e satisfeito com a proeza, Paulo sentiu uma renovada sensação de amor íntimo nos lábios. Sorridente, desceu a caneca da boca para a mesa com violência, com o propósito de fazer barulho, como se estivesse a dizer: “Sou homem, porra!”.

Quando o vidro do recipiente ressoou sobre a madeira da mesa, Paulo olhou para o fundo da caneca. Súbito, seu estômago passou a colocar de volta no copo tudo o que ele havia ingerido. Paulo apresentou a todos naquela noite um número que ninguém esperava: ele não só bebeu 1 litro de cerveja, como ainda devolveu a bebida à caneca.

E nunca mais alguém produziu na Choperia Paulistana a mesma mágica etílica.

Anúncios
Esse post foi publicado em Crônicas do cotidiano e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s