Recordar é viver: “A banalização da intolerância”

Em tempos de tanto ódio disseminado, talvez convenha recordar um antigo post aqui do Blog, de uma das seções mais mal compreendidas deste espaço: as Variedades.

É o que você vai entender, lendo.

A banalização da intolerância

Publicado originalmente em 25.7.11

Ninguém discorda: a modernidade trouxe enorme avanços pra todo mundo. Viajar, estar informado, comer… é difícil apontar uma área da vida em que o avanço não tenha sido sinônimo de progresso. Mas, como tudo na vida, a modernidade trouxe consigo também os seus inconvenientes.

O principal deles, a meu ver, é a banalização da intolerância. Ou, de outra forma, expressar a intolerância ficou muito mais fácil pra quem já era intolerante. O episódio do maluco norueguês é um exemplo disso.

Não acredito que o mundo de hoje seja mais intolerante do que no passado. A intolerância acompanha a humanidade desde sempre. Intolerância religiosa (ex: o massacre da Noite de São Bartolomeu), intolerância racial (ex: nazismo), intolerância política (ex: ditadura no Brasil). A intolerância pulsa como um coração: há momentos de sístole e de diástole. Mesmo nos momentos de contração, no entanto, ela está lá, pulsando, latente, esperando só uma oportunidade para se manifestar.

A questão é que, em tempos passados, exercer a intolerância demandava mais dos intolerantes. Entenda-se: era difícil para alguém ser intolerante se não estivesse, de algum modo, pendurado em algum estrutura de poder. Perseguir os seus “inimigos” era impossível para quem não tivesse poder ou dinheiro, ou ambos. Não por acaso, às derrubadas de governo seguiam-se surtos de perseguição aos “inimigos”. A missão primeira de quem estava na “oposição” e conseguia derrubar o governante de plantão era passar a oprimir aqueles que o perseguiam. E assim, de vingança em vingança, foi-se construindo a história do mundo.

Hoje, a história é diferente. Se eu sou um intolerante, basta ter um pouco de dinheiro e disposição. Cato em alguns sites da internet informações sobre armas ou explosivos, arquiteto algum plano diabólico e pronto: transformo-me num self made terrorist.

A massificação de informação e o desenvolvimento das armas contribuiu decisivamente pra isso. Compare o que aconteceu na Noruega e o atentado ao arquiduque Francisco Ferdinando, em Sarajevo: o “intolerante” de então matou um só sujeito. Se quisesse matar mais alguém, dificilmente mataria mais de 6 pessoas, por conta do limite de balas do tambor. Com armas automáticas e semi-automáticas ao alcance da mão, ficou mais fácil matar mais gente. Isso para não falar nos explosivos, que podem ser encontrados com certa facilidade no mercado negro.

“Então a culpa de tudo é da evolução das armas?”

Claro que não. A culpa é nossa. Armas são só um instrumento; não matam ninguém se não houver quem lhes aperte o gatilho. O problema é que a humanidade se preocupou demais em inventar acessórios que lhe facilitassem a vida, mas avançou muito pouco em desenvolver-se a si mesma.

Mais do que educação formal, é necessário ensinar às pessoas de hoje e de amanhã o sábio exercício da tolerância. Nada, na minha opinião, é mais importante que isso.

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