A compra da XP pelo Itaú, ou O novo mundo dos investimentos financeiros

O mercado financeiro brasileiro foi sacudido semana passada por um negócio bilionário. Pela bagatela de R$ 5,7 bilhões, o Itaú – maior banco privado nacional – comprou 49,9% da XP – a maior corretora independente do país. Para a maior parte do público, a notícia teve impacto zero. Afinal, com 14% de desemprego e muita gente sem saber nem como vai terminar o mês, poupar é a última coisa que passa pela cabeça do cidadão comum. Mas, no meio desse negócio, pode estar o futuro dos investimentos no Brasil.

Pouca gente sabe, mas você não precisa de um banco para aplicar seu rico dinheirinho. Quer dizer: precisar até precisa, pelo menos para movimentar a conta-corrente, mas a sua casa bancária provavelmente será o último lugar no qual você deve procurar opções de investimento. O lance é o seguinte:

Para além da poupança, de resto o pior dos investimentos que uma pessoa pode fazer, mesmo quem destina as suas aplicações financeiras a opções mais, digamos, “sofisticadas”, como CDB ou fundos de investimento, deve fugir da grande banca. E a razão para isso é muito simples: você vai perder dinheiro.

Em qualquer banco, o atendente, gerente ou o contínuo só vai oferecer produtos daquele banco. Se você tem conta no banco X, só vai poder aplicar nos fundos oferecidos pelo banco X. Da mesma forma, se quiser investir em CDB, somente os certificados de depósito bancários oferecidos por aquela casa poderão ser negociados.

Embora à primeira vista a facilidade de investimento possa parecer uma vantagem, no fundo ela embute uma forma mais elaborada de monopólio. Como o sujeito só poderia, em tese, aplicar nos produtos do seu banco, é óbvio que ele não vai se esforçar nem um pouco em oferecer a maior rentabilidade possível ao seu cliente. Afinal, ele está mais ou menos “obrigado” a investir nele. Desse modo, você acaba investindo seu dinheiro em um CDB de um grande banco que rende 85% do CDI, enquanto outra casa bancária paga 120% pela mesmíssima aplicação.

Sabendo disso, as corretoras independentes, como a XP, acabaram por descobrir o filão da intermediação financeira. Quebrando o monopólio dos grandes bancos, as corretoras permitem que você invista em virtualmente qualquer produto oferecido no mercado. Sem se prender a qualquer amarra, o sujeito pode investir em um CDB do banco Y, ao mesmo tempo em que aplica o dinheiro no fundo de investimento oferecido pelo banco Z.

Como se isso não bastasse, taxas cobradas pelos grandes bancos em operações do Tesouro Direto e no mercado acionário não existem nas corretoras. A maior parte delas não cobra nada pelo serviço. O que antes estava restrito a segmentos de alta renda já desceu a pirâmide financeira no Brasil e já alcançou a base do sistema.

Sentindo o chão lhes faltar, os grandes bancos já tinham começado a se mexer. O próprio Itaú lançara o “Itaú 360”, oferecendo vantagens semelhantes às das corretoras independentes. Aparentemente, isso não foi suficiente para estancar a sangria (só a XP administra R$ 70 bi em investimentos). A saída, nesse caso, foi óbvia: se não pode vencê-los, una-se a eles. E foi assim que o Itaú comprou quase metade da XP.

Na sequência da euforia do negócio, os donos da XP apressaram-se em informar que o acordo acionário envolve a manutenção dos princípios operacionais da corretora, em especial a independência. À primeira vista, seria difícil acreditar nisso. Quem investe quase R$ 6 bilhões em um negócio não vai querer deixar de mandar nele. À segunda vista, porém, a promessa não é de todo implausível. Se a corretora perder a independência e passar a privilegiar, ainda que indiretamente, os produtos do seu agora sócio, acabará por sofrer a mesma migração de que padecem agora as grandes casas bancárias.

Independentemente do que venha a acontecer com a XP ou com o Itaú, o fato é que as corretoras independentes são uma realidade. Com isso, as opções de investimento se multiplicam e, por conseguinte, as chances de ganho também. E só quem tende a ganhar com isso é o investidor.

Bem-vindo ao novo mundo dos investimentos.

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3 respostas para A compra da XP pelo Itaú, ou O novo mundo dos investimentos financeiros

  1. Mourão disse:

    Esse atual modelo brasileiro, não sei se mundial, que privilegia largamente o financeiro e especulativo, em detrimento do produtivo é bem contrário à filosofia verdadeiramente capitalista, que tem por base fortalecer o mercado. mediante a crescente fabricação de bens. Dinheiro fazendo dinheiro não seria nunca o ideal de um verdadeiro capitalismo.

    • arthurmaximus disse:

      Tem razão, Comandante. Embora eu faça restrições a essa conclusão em relação ao mercado acionário – que originalmente é uma das melhores formas de manifestação do capitalismo -, já venho pensando nisso há algum tempo. Mas isso será matéria para outro post. Um abraço.

  2. Mourão disse:

    Concordo sobre a importância, e grande, do mercado acionário, mas como indutor do sistema produtivo. Quando bancos têm lucros bilionários numa economia em depressão,eu acho que alguma coisa está muito errada.

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