Bebida no Carnaval

Maurílio era um sujeito curioso. Bem apessoado, loiro e do olho azul, tinha tudo para funcionar como um ímã de mulheres. Mesmo assim, uma timidez atroz costumava transformá-lo no oposto. Enquanto os amigos contavam nas duas mãos as mulheres com as quais ficavam em festas, Maurílio não raro saía sozinho, macambúzio, sorumbático, remoendo os olhares insinuantes que, por vergonha, não retribuíra.

Obviamente, isso não acontecia sempre. Quando se enfezava com a própria timidez, Maurílio caía na cachaça. Como todo mundo sabe, a bebida funciona como um inibidor dos mecanismos internos de self restraint. Desde sempre, o álcool destrói aquela barreira que impede o tímido de avançar em direção ao sexo oposto. Na medida certa, pode fazer a diferença entre o sujeito voltar da balada com a mulher que queria, ou ficar literalmente na mão. Quando se trata de Carnaval, então, quando todos os romances são fugazes e não há vergonha que dure até a manhã seguinte, Maurílio ia à forra: uma meiota na mão e alguns pensamentos pecaminosos na cabeça faziam com que o sujeito saísse do seu estado natural e se tornasse quase um Don Juan. Foi o que aconteceu em um Carnaval na cidade litorânea de Beberibe.

Já passada meia garrafa de Ypióca, Maurílio abandonara seu padrão normal e adotara o figurino de arrebatador de corações. Ainda assim, como a mente quisesse sempre manter o mínimo de lucidez, Maurílio ainda exibia certas indecisões que recordavam a sua versão alcohol free.

“Vai lá, Maurílio! Vai nela!”, insistiam os amigos.

“Não, não… Essa não tá nem aí pra mim”, saía Maurílio pela tangente.

Foi quando enfim passou uma loira escultural: 1,80m, porte atlético, cabelos lisos e escovados, enchendo um figurino altamente provocativo.

“Olha aí, Maurílio! A loiraça dando mole pra ti!”, brincaram os amigos.

“É não, cara… É, não…”, respondia enxabido a figura.

“É, sim! Olha lá ela olhando pra ti!”, insistia a malta.

“É? Olha que eu vou lá!”, ameaçou Maurílio, já nutrindo alguma esperança conferida pelo destilado.

“Vai lá, vai!”, o grupo exortava.

Maurílio foi. Barriga pra dentro, peito pra fora, queixo alto, o sujeito caminhou em direção à loira e às amigas que a acompanhavam com um olhar ao mesmo tempo confiante e fatal. Chegando lá, puxou-a pelo braço, trouxe o ouvido dela para perto da sua boca e sussurrou insinuante:

“E aí, gatinha, qual é o seu nome?”

A loira respondeu com uma voz grave e cavernosa:

“Valdemar!”

E Maurílio então aprendeu que bebida em excesso nunca faz bem à saúde.

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