O saldo das eleições municipais, ou O Brasil pós-PT – Parte II

Domingo o Brasil foi às urnas. Esperados com ansiedade, os resultados mostraram aquilo que toda a gente esperava: uma débâcle generalizada do PT. Alvejado pela Lava-Jato, marcado pelo estrondoso fracasso do governo Dilma e sem perspectivas de poder no futuro próximo, o outrora todo-poderoso Partidos dos Trabalhadores regressou 20 anos no tempo, reduzindo-se ao seu tamanho no meio dos anos 90. Se o desastre já seria notável em qualquer altura, ele ganha contornos apocalípticos quando se volta o relógio apenas um pouquinho no tempo.

Há pouco mais de três anos, o PT tinha ganhado 3 eleições presidenciais consecutivas, Lula saíra como político mais popular da Terra e Dilma ostentava a fama de “gerentona” e “faxineira ética”, montada numa popularidade de quase 60% do eleitorado. Tudo isso e mais o segundo lugar no ranking de prefeituras no país, a segunda maior bancada na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, e uma infinidade de deputados estaduais e vereadores funcionando como cabos eleitorais. Fernando Haddad, o “poste” paulista de Lula, acabara de ser eleito prefeito de São Paulo e os petistas organizavam o bote à última cidadela da oposição que ainda não havia sido conquistada: o governo de São Paulo.

O que foi que mudou de lá pra cá? Como é possível que, em apenas três anos, um partido que estava prestes a dominar quase todas as esferas relevantes de poder no país tenha sido reduzido a apenas uma fração do que era?

A resposta talvez passe pela análise do funcionamento do PT como partido.

Fruto das greves do ABC e inspirado diretamente no movimento sindical dos anos 70, o PT nasceu nos anos 80 como um “partido de tendências”. Várias correntes disputavam os rumos do novo partido, sempre marcado pelos indefectíveis debates nos congressos partidários. Se por um lado isso trazia a indesejada inviabilidade prática do “mesão de Sindicato”, no qual muito se discute e quase nada se decide, por outro mantinha os canais de comunicação abertos entre o comando partidário e a militância, permitindo o fluxo contínuo do oxigênio necessário à manutenção de sua jovialidade.

Em meados dos anos 90, tudo mudou. Como o partido não conseguisse ganhar eleições majoritárias, um rearranjo das forças internas arquitetado por um sujeito de tradição stalinista (José Dirceu) conseguiu reunir duas das maiores facções partidárias – a Articulação e a Democracia Radical – para formar uma terceira. O nome indicava desde logo o seu propósito: Campo Majoritário. Foi através da criação do Campo Majoritário que Dirceu conseguiu unir o PT em torno de Lula. Some-se a isso as “concessões” ao establishment (incluindo a famosa “Carta aos Brasileiros”) e o resultado será óbvio: Lula presidente da República.

Claro, o sucesso teria de cobrar seu preço. A unificação do partido dependia da adoção de uma estratégia de força contra os opositores internos. Era evidente que um partido comandado com mão-de-ferro não poderia mais aceitar as guerras fratricidas dos seus primórdios. Um a um, os dissidentes foram sendo colocados para correr do PT: Heloísa Helena, Chico Alencar, Marina Silva, e por aí vai.

A quem ficou, não restou outra alternativa senão rezar a cartilha pregada pelo comando partidário. E aí os “erros” do partido – Mensalão, Waldomiro, Petrolão, etc. – começaram a ser ignorados em nome do “projeto”. Tudo valia, desde que em nome do “bem maior”: manter o partido no comando do país, para supostamente operar uma “revolução social”.

Mas não foi só no âmbito interno que o Campo Majoritário pretendeu exercer sua hegemonia. Todas as outras legendas que a ele se associavam tinham de se contentar com o papel de satélites. Como uma frondosa mangueira, o partido poderia prometer sombra a todo mundo, mas jamais lhes daria um lugar ao Sol. Em um projeto de poder de cunho stalinista, é evidente que os acessórios não podem crescer a ponto de rivalizar com o principal.

Obviamente, essa era uma estratégia de fôlego curto. Enquanto houvesse bonança econômica, todos os escândalos seriam perdoados e o sucesso eleitoral estaria garantido. Os companheiros caídos em combate – Dirceu à frente – seriam substituídos por outros, mas o “projeto” sempre estaria a salvo. No entanto, quando a bonança acabasse, as trincas da hegemonia começariam a aparecer.

E foi justamente isso que aconteceu com o PT. Nascido como um partido ideológico, com vocação para a esquerda, o PT transformou-se em um “partido de resultados”. No momento em que os resultados desapareceram, graças em grande parte à incompetência de Dilma Rousseff, o discurso ideológico de antigamente perdeu o sentido. Dentro desse cenário, o resultado do último domingo perde seu caráter de surpresa e adquire contornos de desfecho inevitável, quase natural.

Agora, os antigos dissidentes, transformados em cacos partidários, começam a ocupar o espaço ideológico outrora ocupado pelos petistas. O PSOL candidata-se a reeditar a escalada petista ao poder, enquanto outras legendas de menor expressão nos tempos petistas (PDT e PSB, por exemplo) lutam para herdar os espólios da guerra contra o PT.

O saldo das eleições municiais de 2016, portanto, é a derrocada do PT como partido hegemônico na esquerda brasileira. Embora alquebrada pelas recentes derrotas eleitorais, a esquerda nacional haverá de reaglutinar-se em torno de outros nomes, postados em outras legendas, com PT funcionando como apoio fundamental, mas sem o poder de ditar as cartas como antigamente.

E será bom que assim seja. Talvez a grande lição a tirar de todo esse episódio é que a política brasileira não tem espaço para partidos hegemônicos. Da mesma forma que a hegemonia petista causou tantos danos ao país, a predominância de qualquer partido à direita causará mal igualmente nefasto. A pior coisa que poderia acontecer nesse momento é que, a pretexto de extirpar a “herança maldita do PT”, toda a esquerda brasileira fosse dizimada, invertendo-se a dominação ideológica que interditou por mais de uma década o debate no Brasil.

Porque, quando uma só cabeça manda, todos perdem.

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