A revolução tecnológica capitalista, ou Um mundo para além dos Estados

O senso comum costuma associar a palavra revolução a eventos apocalípticos, caóticos, nos quais a balbúrdia iniciada a partir de um estopim ocasional acaba por mudar para sempre a configuração de um país ou do mundo inteiro. Embora a definição não esteja muito longe da verdade, casos há em que as revoluções dão-se silenciosamente, às vezes à vista de todos, sem que ninguém perceba exatamente que ela está acontecendo. É possível que estejamos vivenciando hoje caso semelhante.

Como todo mundo sabe, a Internet permitiu a revolução das comunicações. Não só isso. Eliminou de vez barreiras que permitiam aos Estados controlar fluxos de gente e de capital. Com ela, surgiu praticamente uma nova economia, na qual idéias – tais como reunir gente interessada em publicar suas fotos a esmo – passaram a valer muito mais que ativos físicos. O fato de empresas como a Apple, que não possui fábrica para produzir qualquer de seus produtos, ou mesmo o Facebook, que sequer produz qualquer coisa, valerem mais do que bancos consagrados ou empresas como a Coca-Cola são o retrato mais evidente desse novo momento da economia mundial. Nessa perspectiva, o desenvolvimento de aplicativos para celulares é apenas o passo mais ousado numa direção que já se insinuava pelo menos desde a virada do milênio.

Mas, se por um lado era previsível e até mesmo esperado que as novas empresas surgidas a partir das conexões da Internet abrissem um admirável novo mundo para os negócios, por outro era difícil acreditar que essa nova concepção econômica pudesse sobrepujar os próprios Estados nacionais.

Pelo menos desde o século XV, o mundo organizou-se a partir de estruturas burocráticas de poder. Forjadas no feudalismo e no absolutismo monárquico, os Estados nacionais foram talvez a idéia que mais assombrou a humanidade no milênio passado. Pela primeira vez na história, poder e economia atuavam em conjunto, expandindo seus poderes através de suas fronteiras, através de guerras, se necessário fosse.

Depois da Era das Revoluções (Industrial e Francesa), essa tendência apenas se acentuou, com representantes do poder político atuando como agentes de negócios dos detentores do poder econômico. O que seriam os embaixadores, senão grandes “vendedores” de seus próprios países (e de suas empresas) no exterior?

Obviamente, a manutenção dessa estrutura assenta-se no monopólio do poder. E aqui não se fala em “poder” em seu sentido estrito, mas em sentido lato: poder para autorizar a abertura de uma fábrica, estudar determinada matéria na escola ou mesmo construir uma casa numa determinada vizinhança. São os “representantes do Estado”, personificados na burocracia do serviço público, regrada por um emaranhado jurídico, que permite o exercício monopolista do poder estatal.

Tudo isso agora é passado. Antes, os dados da vida de um sujeito eram “propriedade” dele mesmo e do Estado. Quem quisesse ter acesso a informações sobre a vida de outra pessoa, dependia de fofocas dos vizinhos ou, no limite, dos bancos de dados dos serviço de inteligência estatais. Agora, basta dar um “Google” ou entrar no Facebook para saber tudo da vida da figura.

E a coisa não pára por aí. Por muito tempo, as vagas de táxi eram disputadas mundo afora como veios de mineração. Conseguir uma era sinal de paz e prosperidade, a ponto de haver inventários nos quais o único “bem” em disputa ser o direito de exercer regularmente a profissão de taxista. Não por acaso, sindicatos de taxistas e políticos locais controlam com mão de ferro esse mercado, dada a quantidade de dinheiro que movimenta. Com o Uber, essa estrutura tornou-se obsoleta. O serviço de táxi abandonou sua feição cartorial, permitindo a qualquer pessoa com um automóvel e um celular transportar passageiros como modo de sobrevivência.

À primeira vista, não aconteceu nada de mais. Havia demanda, alguém teve uma idéia e agora está ganhando dinheiro com isso. Olhando-se mais a fundo, verifica-se que o Estado foi atropelado pelo avanço tecnológico, perdendo o monopólio na autorização do transporte público de passageiros. Pode parecer pouco, mas é um golpe mortal numa estrutura que está organizada há pelo menos dois séculos.

O mesmo aconteceu com o mercado de hotelaria. Antes, hotéis disputavam mercado e estrelas entre si, repartindo hóspedes e controlando a demanda de modo que as tarifas sempre permanecessem altas. Com a criação do AirBnb, que permite a pessoas comuns transformarem suas residências em hospedarias, mais uma vez o monopólio “Estado-Poder Econômico” foi quebrado. E a ameaça neste caso foi sentida de maneira tão forte que já há cidades proibindo seus residentes de atuarem para o site.

O problema, como todo mundo sabe, é que monopólio de poder é como virgindade: uma vez quebrado, não há como voltar atrás. Além dos óbvios aplicativos que detonaram a viabilidade econômica das grandes redes de telefonia, até mesmo mercados aparentemente inacessíveis, como os bancos, estão sob ameaça desse novo modelo de gestão financeira. Quem já descobriu aplicativos que permitem desde o investimento em ações até transferências internacionais de dinheiro sabe bem do que estou falando.

O fato é que, com o desenvolvimento da tecnologia, o mundo econômico agora passeia à margem do poder do Estado. Ao contrário da aliança que perdurou nos últimos cinco séculos, ele agora pode mandar sozinho, sem precisar do “apoio” de uma burocracia estatal plenipotenciária. Caminha-se em direção a um mundo cada vez mais integrado, em que as pessoas não vão mais depender do beneplácito do mandatário de plantão. Tudo estará ao alcance de apenas um clique.

Bem-vindo aos novos tempos.

Anúncios
Esse post foi publicado em Economia, História e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s