Recordar é viver: “Tempestade no Canal. Continente isolado”

Obviamente, a seção nostalgia deste espaço não poderia ser dedicada hoje a outro assunto senão à saída do Reino Unido da União Européia.

Se a decisão de hoje pegou muita gente de surpresa, quem acompanha o Blog pôde pelo menos intuir que alguma coisa de errada poderia dar no referendo promovido por David Cameron.

É o que você vai entender, lendo.

 

Tempestade no Canal. Continente isolado.

Publicado originalmente em 9.12.11

 

Nesses dias, os países integrantes da União Européia reúnem-se em cúpula para tentar solucionar a crise da dívida européia.

Quem acompanha o blog viu que o assunto já foi exaustivamente tratado aqui. Em suma, dizia-se que o euro é uma moeda sem futuro porque não havia uma política fiscal comum à eurozona. E, com o tempo, o descompasso entre as políticas fiscais dos vários países acabou por arrastar todos para o mesmo barco. Agora, procura-se desesperadamente uma saída.

Nos últimos dias, Alemanha e França parecem ter chegado a um consenso quanto à necessidade de implementação da união fiscal na eurozona. União fiscal meia-boca, é verdade, porque os orçamentos continuarão sendo nacionais. Mas o Conselho Europeu deteria uma nova competência: fiscalizar o cumprimento das metas de déficit público (inferior a 3%) e de dívida pública (inferior a 60% do PIB). Quem saísse do riscado perderia as transferências de dinheiro dos fundos europeus de apoio e desenvolvimento. Não é uma solução definitiva, mas é definitivamente melhor do que o que está aí.

O problema é que os países fora da eurozona não querem nem ouvir falar no assunto. Reino Unido e Suécia, por exemplo, países não aderentes ao euro, rejeitam qualquer possibilidade de ter seus orçamentos “ditados por Bruxelas” (sede da União Européia).

Mais que isso, move os britânicos o velho sentimento de isolacionismo em relação ao continente europeu. Quando o euro veio ao mundo, a Inglaterra ficou de fora. Hoje, parece ter sido a decisão mais sábia, mas a escolha britânica não pode ser creditada a uma análise racional quanto à debilidade estrutural do euro. O buraco é bem mais embaixo.

Cercados de água por todos os lados, os britânicos nunca se viram como parte da Europa. Seus interesses sempre foram limitados a impedir que surgisse no continente alguma potência a lhe fazer sombra. Daí as investidas contra a França napoleônica e contra a Alemanha nas duas grandes guerras.

O problema é que, no arranjo europeu, mesmo fora do euro, a Inglaterra depende muito mais da Europa do que a Europa da Inglaterra. Desde que perdeu a condição de potência hegemônica do mundo, o Reino Unido acentuou seu declínio industrial, tornando-se, cada vez mais, um centro provedor de serviços. Hoje, Londres é a praça financeira da Europa. Está para ela como Wall Street está para os Estados Unidos.

Se de repente a Inglaterra sair da União Européia, todo o sistema sobre o qual sua economia está hoje estruturada ruirá como um castelo de cartas. Mesmo assim, David Cameron e seus conservadores acham que se manter afastados das soluções européias ajudará a mantê-los afastados também dos problemas europeus.

Ver notícias assim só me faz lembrar de uma manchete de jornal britânico do final do século XIX. Dizia o seguinte:

“Tempestade no Canal. Continente isolado”.

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