Recordar é viver: “As eleições britânicas, ou A Europa no fio da navalha”

Com o Reino Unido às vésperas de consumar sua saída da União Européia, convém recordar um post publicado aqui há pouco mais de um ano.

E, afinal, vamos descobrir se o David Cameron está mais para Winston Churchill ou para John Major.

As eleições britânicas, ou A Europa no fio da navalha

Publicado originalmente em 13.5.15

 

Brasileiro não gosta muito de eleição; este é um fato. Só costumar se voltar a ela a poucos dias de dedilhar o número de seu candidato na urna. Quando muito, acompanha nas redes sociais os embates entre os principais candidatos, sempre que uma outra trapalhada transforma o debate eleitoral numa variante do Ultimate Fighting. Se a eleição é no exterior, então, esqueça; o cidadão comum pouco se importa com o que acontece além das nossas próprias fronteiras.

Com as eleições parlamentares no Reino Unido, o roteiro seguiu o padrão de sempre. Algumas notas esparsas no noticiário, 1 minuto ou menos no Jornal Nacional e dê-se por satisfeito. Isto é tudo de política internacional a que a imprensa nacional se permite. Pena, porque o que esteve em jogo nas eleições para o British Parliament foi muito mais do que se pode imaginar.

Para quem não acompanhou o embate, o primeiro-ministro conservador David Cameron concorria à reeleição em um cenário que não parecia nada promissor. Depois de ter governado cinco anos assentado numa frágil aliança com os Liberais Democratas, Cameron brigara com meio mundo e partiu para um tudo ou nada: ou seu partido obtinha a maioria absoluta das cadeiras, ou então ele preferia sair de cena.

Até as vésperas da eleição, o jogo parecia jogado. Avistava-se o enfrentamento eleitoral mais disputado dos últimos tempos, sem que nenhum dos dois maiores partidos – Conservador e Trabalhista – alcançasse sozinho maioria absoluta. Pior. O crescimento de partidos “alternativos”, como o Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip) e o Partido Nacional Escocês (SNP), sugeria a virtual impossibilidade de composição de uma maioria, dando margem à ocorrência do famigerado hung parliament (“parlamento enforcado”), no qual nenhum partido consegue obter maioria para governar.

No entanto, assim como no Brasil, as pesquisas eleitorais britânicas nunca foram muito dignas de confiança. Depois de terem chutado fora da margem de erro em 15 das últimas 16 eleições, os institutos de pesquisa do Reino Unido bateram o recorde. Enquanto todos indicavam uma disputa acirrada entre Conservadores e Trabalhistas, mas sem que nenhum dos dois chegasse sequer perto das desejadas 326 cadeiras, o resultado final sagrou uma vitória incontestável dos conservadores. Com 331 cadeiras, o partido de Cameron ficou com 5 cadeiras além do necessário para mandar sozinho nas terras da Rainha.

Agora, como diria o matuto, é que são elas. Depois de contrariar todas as pesquisas de intenção de voto, dar um banho nas urnas e provocar a renúncia de todos os chefes dos partidos rivais, Cameron agora vê-se à volta de um dos principais problemas de sua campanha: o referendo sobre a continuidade da Grã-Bretanha na União Européia.

Não que se trate de algo novo. Na verdade, o referendo já estava previsto na primeira campanha de Cameron para primeiro-ministro, há cinco anos. Prometido para 2017, o referendo propõe convocar a população local a decidir se quer seguir marchando ao lado do continente europeu ou se, invocando sua tradição peninsular, os britânicos vão abandonar a Europa à sua própria sorte e caminhar sozinhos neste mundo de incertezas.

Verdade seja dita: os britânicos nunca fizeram realmente parte da União Européia. As duas principais circunstâncias a unir os outrora inimigos europeus são a moeda única (euro) e a liberdade de circulação (Tratado de Schengen). Pois a Grã-Bretanha nunca fez parte de nenhum dos dois. Manteve sua secular libra como moeda nacional – e escapou da canoa furada do euro – e jamais quis permitir a livre circulação de cidadãos europeus por suas fronteiras.

Ainda assim, fortes laços econômicos atam a rebelde ilha britânica ao continente. Berço da revolução industrial, a Grã-Bretanha deixou de ter na indústria o principal motor de sua economia já faz quase um século. Desde então, o eixo econômico gira em torno do setor financeiro, com Londres ostentando a posição de principal centro financeiro da Europa.

Durante a campanha, Cameron acenou com o referendo para mitigar a força dos partidos independentistas. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro britânico utilizava a mesma arma como uma espécie de chantagem aos seus parceiros europeus: “ou me dão o que eu quero, ou então vou sair da União Européia”.

No melhor dos mundos para David Cameron, ele consegue dobrar França e Alemanha e arrancar concessões para uma (ainda) maior autonomia do Reino Unido. Com esse trunfo na manga, vende ao seu eleitorado a idéia de que conseguiu tudo o que queria. Assim, pode realizar o referendo e fazer campanha pela manutenção da Grã-Bretanha na União Européia, apoiado na “vitória” contra os aliados europeus.

O problema, como diria Garrincha, é que falta combinar com os russos. Pode até ser que Cameron consiga dobrar o resto da Europa a lhe dar mais autonomia com base na chantagem da saída do bloco. No entanto, nada garante que, mesmo com essa vitória, ele consiga convencer seus eleitores a votar contra a saída da União Européia.

É justamente por conta desse receio que França e Alemanha não se mostram muito receptivas às propostas de Cameron. Para entregarem o que ele pede, exigem garantias. E garantias é tudo o que Cameron não lhes pode dar.

Quando estava no meio da campanha, David Cameron conseguiu com sucesso usar o confronto entre os interesses internos e o receio externo para obter das urnas uma maioria consagradora. Resta agora saber se conseguirá se equilibrar na tênue linha que separa um estrategista genial de um político mambembe. Olhando-se à distância, Cameron está hoje mais para John Major do que para Winston Churchill.

A conferir.

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