O beco sem saída

Hoje, o deputado Jovair Arantes deve entregar seu relatório na Comissão Especial de Impeachment da Câmara dos Deputados. Salvo uma reviravolta de última hora, o relatório deve pedir a cassação do mandato de Dilma Rousseff e ser aprovado por ampla maioria na próxima segunda-feira. A essa altura do campeonato, já não interessa saber se o plenário da Câmara chancelará a decisão da Comissão Especial. Qualquer que seja o resultado da votação, a consequência será uma só: um país fraturado, sem chance de reconciliação em horizonte próximo.

Claro que não chegamos aqui por acaso. Tudo começou quando o PT, representado na voz de seu líder máximo, Lula, achou que seria uma boa faturar eleitoralmente na base do “nós contra eles”. Enquanto a economia bombava e seu governo era aprovado por 80% da população, ninguém deu muita bola pra isso. Quando Dilma revelou-se um flagelo ainda maior que Fernando Henrique e sua popularidade despencou abaixo do volume morto, os problemas começaram a aparecer.

O primeiro deles reside no ressentimento que essa estratégia provoca na parcela da população identificada como “eles”. Uma pessoa pode se opor ao PT por muitos motivos, mas quando o partido atribui-se o monopólio da virtude e passa a identificar em seus opositores uma forma de “encarnação do Mal”, junta-se no mesmo balaio de gatos a oposição legítima daqueles que não seguem a sua linha ideológica e a oposição radical, do tipo Bolsonaro, segundo a qual o PT representa uma “ameaça comunista” ao país e Dilma não passa de uma “terrorista búlgara”.

O segundo problema passa pela idolatria gerada na parcela da população que se identifica com o “nós”. Ao propalar aos quatro ventos que somente os petistas são capazes de “governar para o povo”, os mais susceptíveis passam a enxergar em Lula uma entidade quase messiânica. Há, claro, quem defenda a manutenção de Dilma para não perder a sua boquinha, mas há aqueles que acreditam sinceramente que qualquer coisa que não seja o PT no governo representará o caos, ou, no mínimo, a destruição de toda a rede de proteção social garantida pela Constituição.

É óbvio que a realidade é muito mais complexa do que isso. No mundo real, poucas coisas operam em lógica binária, e a política é provavelmente o último dos lugares em que se trabalha na base do “ou tudo ou nada”. Mesmo assim, quando se fomenta uma polarização baseada no ódio, estimula-se uma reação contrária na mesma direção e intensidade, mas com sentido oposto. Daí as manifestações que pedem intervenção militar e forca para os integrantes do PT. Nada, portanto, que não tenha sido previsto pela Terceira Lei de Newton.

Até onda a vista alcança, há basicamente duas possibilidades pela frente:

Na primeira delas, vence o impeachment. Dilma cai, arrasta com ela Lula e os vencedores invadem Roma no melhor estilo “mata-e-esfola”, não deixando pedra sobre pedra. Uma parcela ainda relevante da sociedade ficará órfã de seu líder, sem que os novos governantes se disponham a ampará-la. O ódio contra os opositores ao governo somente aumentará, fazendo com que os derrotados adotem uma estratégia de guerra de guerrilha social contra os que ascenderem ao poder (greves, invasões de propriedades, etc.).

Na segunda, Lula consegue operar o milagre de salvar o Governo. Nesse caso, prolonga-se a agonia até Deus sabe quando, sem que os petistas consigam reagrupar minimamente uma base que lhes permita aprovar qualquer coisa no Congresso, restando-lhes somente acentuar o discurso contra a “elite branca” e a “mídia golpista”. A oposição ao Governo, hoje largamente majoritária na população, ficaria ainda mais ressentida, aprofundando a radicalização contra os petistas (xingamentos em restaurantes e surras naqueles que se vestem de vermelho, para ficar só em dois exemplos).

Claro que o melhor cenário seria, no primeiro caso, que os vencedores estendessem a mão numa atitude de reconciliação, sem revanchismo contra o PT. Do outro lado, o ideal seria que o PT também estendesse a mão, ajoelhando no milho e reconhecendo o equívoco que foi apostar na divisão da sociedade como estratégia eleitoral. Mas, a essa altura, só mesmo sendo muito otimista ou muito ingênuo para acreditar que qualquer desses dois cenários seja possível.

Agora, o Brasil entrou em um beco sem saída. Não há como reorganizar a estrutura de poder à esquerda – seja com Dilma, seja com Lula -, nem muito menos há possibilidade de organizar-se um novo governo à direita – seja com Temer, seja com qualquer candidato do PSDB. Não há mais possibilidade de reconciliações. Aconteça o que acontecer, não haverá sufragados e adversários; apenas vencedores e vencidos.

Como sairemos dessa enrascada?

Só Deus sabe.

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