A qualidade musical brasileira, ou O que aconteceu com as músicas infantis?

É fato: a música popular brasileira enfrenta um período de seca difícil de aguentar. O deserto criativo é tamanho que são poucos os que decidem se aventurar a atravessá-lo para encontrar algum oásis decente no meio de tanta porcaria. Para quem pensava que a MPB alcançara o fundo do poço no meio dos anos 90, com a praga onipresente do pagode e gente usando garrafas para efeitos outros que não o de acondicionar líquidos, o novo milênio veio para provar que, no Brasil, o fundo do poço é móvel.

Não faltarão aqueles que defendam que cada período musical tem sua marca, de maneira que os artistas de hoje só serão reconhecidos daqui a 20 ou 30 anos, quando o tempo tiver se encarregado de expurgar alguns espinhos que tornam molesta a audição de suas criações. Falta explicar, contudo, porque figuras como Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano e Gil – para citar só quatro exemplos – eram idolatrados ontem e hoje, com igual reverência pela sonoridade de suas composições.

Tudo bem. Comparar gênios da arte com os talentos descartáveis de hoje em dia parece covardia. Mas não será necessário ir muito longe para verificar o abismo que separa a qualidade da música produzida hoje em dia da música composta há não muito tempo. Basta lembrar das músicas infantis que animavam as festinhas infantis na década de 80.

Quem tem um pouquinho mais de idade deve se lembrar. Na “década perdida”, não havia crianças dançando até o chão, muito menos algo parecido com o “Show das Poderosas”. A trilha sonora das festas era conduzida por duas bandas infantis: a Turma do Balão Mágico e o Trem da Alegria.

Turma do Balão Mágico

Trem da Alegria

Vindos na esteira do sucesso de Pirlimpimpim, o Balão Mágico e o Trem da Alegria apareceram no final do primeiro terço da década de 80. Daí pra frente, as bandas ostentaram uma espécie de duopólio musical quando o quesito era “música para menores de 8 anos”. Simplesmente não havia lugar em que houvesse criança, mas não houvesse alguma das músicas dos grupos. Até mesmo as rádios renderam-se ao estrondoso sucesso dos dois quartetos, retransmitindo suas canções para todo o país. Trata-se de façanha considerável, especialmente porque se considerava impensável tocar música que não fosse para jovens ou adultos, público principal das rádios.

Obviamente, o sucesso não veio por acaso. Além da feliz reunião de crianças com talento natural para a música e um carisma indistinto para tão tenra idade, os responsáveis pelas bandas conseguiram reunir compositores do mais alto quilate para produzir as canções que eles cantariam. No caso do Balão Mágico, a CBS chamou ninguém menos do que Edgard Poças, maestro que trabalhara com Bibi Ferreira e tivera músicas gravadas por gente como Djavan, Gal Costa e Roberto Carlos. Para o Trem da Alegria, a BMG trouxe Michael Sullivan, o eterno compositor das baladas de Tim Maia (mas não só). O resultado, claro, não poderia ser outro: uma avalanche de sucessos infantis como jamais se viu na história do país.

Ok. Parte das canções (quase todas do Balão Mágico) era apenas versões de músicas estrangeiras. Ou seja: tratava-se de sucesso já experimentado e comprovado lá fora. Mesmo assim, isso não tira o brilho das composições. Ao contrário. Como Nelson Motta provaria depois, em muitos casos a versão em português de determinadas canções estrangeiras conseguia superar suas versões originais. Quem não acredita, pode ouvir E po che fa, de Pino Dianelle, cantada em napolitano e comparar com Bem que se quis, na voz de Marisa Monte, para entender do que estou falando.

Embora os quartetos fossem formados por crianças, muita gente boa – e adulta – embarcou na onda da música infantil. Djavan, Roberto Carlos, Fábio Jr., Baby Consuelo e até mesmo Jô Soares gravaram com a banda, o que dá uma idéia da dimensão que as bandas alcançaram.

Evidentemente, assim como muita coisa dos anos 80, o sucesso do Balão Mágico e do Trem da Alegria foi lentamente esvaecendo à medida que a década se acabava. Na virada dos anos 90, ninguém mais dava bola para as bandas. Depois de tentarem várias formações diferentes, ambas acabaram se desmanchando e ficando, ao lado dos clássicos da Sessão da Tarde, somente com uma lembrança fugidia daquela época.

Não faz mal. Para todo o sempre, as bandas infantis dos anos 80 ficariam marcadas na história como a prova de que é possível fazer música de qualidade para a criançada, sem precisar apelar para refrãos de duplo sentido que caberiam melhor – se tanto – a ouvidos uma dezena de anos mais velhos.

Abaixo, alguns dos clássicos da Turma do Balão Mágico e do Trem da Alegria:

Anúncios
Esse post foi publicado em Música e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s