A busca pela simplicidade, ou A escrita com clareza

A história é antiga.

Nascido em família pobre, em um país no qual viver da escrita implica quase sempre voto de pobreza, Graciliano Ramos mantinha o feijão com arroz em casa fazendo bico como revisor de jornal. Certa feita, um jornalista novato trouxe-lhe uma reportagem para revisão. Entre meia dúzia de informações que o artigo trazia, no meio do texto havia uma frase que se iniciava com “outrossim”. Graciliano parou, respirou fundo, levou o cigarro à boca, soltou a fumaça pelo nariz e exclamou: “Outrossim…Outrossim é a puta que o pariu!”

Se é verdadeira ou não, não se sabe, mas o fato é que a lenda correu de tal modo que nunca mais ninguém discutiu se de fato o “Velho Graça” teria cometido semelhante impropério. Não é pra menos. Graciliano nunca fez propriamente o tipo simpático. Ao contrário. Embora cordato, cultivava a acidez no trato e um certo ceticismo em relação à vida, a tal ponto que, quando Otto Maria Carpeaux cumprimentou-lhe uma vez com um “Bom dia”, ele retorquiu: “Você tem certeza disso?”

Não se trata, aqui, de falar do mau humor de Graciliano, mas de buscar no anedótico episódio do jornalista e seu revisor uma forma de escrever melhor. Afinal, qual é o problema com o “outrossim”?

Advérbio de movo equivalente a “igualmente”, “também” e “da mesma maneira”, “outrossim” não encerra em si qualquer problema de origem. Assim como todos os demais advérbios, o problema não está na palavra, mas na forma com a qual se a emprega.

Quem já leu Graciliano Ramos sabe muito bem que o escritor trazia consigo uma obsessão quase selvagem pela simplicidade da linguagem. Seu propósito era simples: quanto mais simples a leitura, maior a capacidade de compreensão do leitor. Logo, maior será a capacidade de absorção daquilo que se escreveu, conferindo a quem lê algo que ele julgava fundamental: a capacidade contra-argumentativa. Daí a razão pela qual o Velho Graça enxugava seus textos de forma contínua, “como faziam as lavadeiras retorcendo os panos úmidos” (a analogia é do próprio Graciliano).

O problema do outrossim nesse caso está relacionado a seu emprego fora de ordem. Em um texto jornalístico, o objetivo precípuo é a notícia. A idéia é fazer com que o leitor apreenda o conteúdo da informação e, tanto quanto possível, faça juízo próprio sobre ela. Ao se colocarem expressões que fogem ao uso corrente da língua – ninguém sai por aí falando “outrossim” numa conversa -, retira-se do texto a sua objetividade e, quiçá,  a capacidade de compreensão do leitor.

Sob esse aspecto, nenhum periódico foi mais revolucionário no Brasil do que O Pasquim. Supra-sumo da juventude carioca, o jornal de oposição à ditadura militar notabilizou-se não só pelo estilo irônico e ácido, mas também por expurgar da grande imprensa cacoetes que só figuras do naipe de Graciliano Ramos tinham coragem de enfrentar. Depois d’O Pasquim, jamais um entrevistado voltou a “tecer comentários”, e vereador nunca mais foi chamado de “edil”.

Mas isso vale apenas para textos jornalísticos?

É claro que não. Na verdade, a busca pela simplicidade deve ser um objetivo de todo escritor honesto, seja seu texto científico ou não. É muito fácil escrever que “desnecessário faz-se empregar estilo de escrita demasiadamente rebuscado” quando não se sabe ao certo se alguém do outro lado do papel vai entender o que está escrito. Quando se colocam no texto expressões herméticas ou se escondem idéias por trás de vocabulário grandiloquente, o escritor está ao mesmo tempo se demitindo da obrigação de fazer sentido. Se alguém não entender o que ele escreveu, paciência. A culpa será de quem não soube entender.

Por outro lado, quando o sujeito escreve de forma simples, suas idéias submetem-se ao escrutínio público e permitem a qualquer um entender o que se quis passar e, mais importante, verificar se o texto em si faz nexo. Não por acaso, 11 em cada 10 economistas escrevem de maneira ininteligível, de modo que não se possa contra-argumentar suas posições. Se o Banco Central nos brinda com taxas de juros obscenas ou se os bancos americanos conseguiram fazer com que tanta gente embarcasse na compra de títulos podres, muito disso está relacionado à forma com a qual se expressam. Se adotassem o estilo do Velho Graça, jamais o público engoliria semelhantes ardis.

Em razão disso, a dica é buscar a simplicidade e a clareza no seu texto. Assim como em muitas outras coisas da vida, aqui vale a regra “menos é mais”.

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